“Zumbis”, dizia o e-mail com remetente sul-coreano a que ninguém deu atenção, enviado onze dias antes dos acontecimentos de “Guerra Mundial Z”, de Marc Foster. Mas este filme dá nova dimensão aos filmes de apocalipse zumbi, talvez porque de maneira alguma se resuma às criaturas descritas pela primeira vez na fé vodu da África e do Caribe.
Os filmes-catástrofe podem se basear em invasões alienígenas (“Guerra dos Mundos”, “O Dia Em Que a Terra Parou”, “Invasão do Mundo – Batalha de Los Angeles”), desastres naturais (“O Dia Depois de Amanhã”, “2012”, “Armageddon”), pandemias (“Contágio”, “Filhos da Esperança”, “Sentidos do Amor”).
“Z” de alguma forma é um amálgama destas ameaças, e é sintomático que seja intitulado Guerra Mundial, remetendo a dois episódios históricos que despertaram todo o mal – e também o bem – da raça humana, mas que no panorama atual seriam mais provavelmente evocados uma terceira vez com um inimigo não-humano, seja um vírus, a temperatura ou zumbis.
Às vezes, a humanidade de algumas pessoas fica em dormência, como se fossem zumbis, até que um perigo conjunto desse naipe as faça acordar. Quando assim confrontados como espécie, reagimos por instinto de sobrevivência, e isso inclui governo, cientistas, militares, mídia e o cidadão. Ou seja, todo mundo. Mas se, ao contrário de em uma comédia romântica, por exemplo, os eventos de um filme afetam todos os terráqueos, um recorte se faz necessário. 7 bilhões é gente demais, então quem acompanharemos?
Muitos bons filmes do gênero optam por uma solução mista, isto é, personagens que têm interesses particulares, como preservar sua própria família, e alguma ligação com as instituições que podem fazer diferença em nível global, que às vezes são reunidas em uma força-tarefa para salvar o mundo. Quando a grande família humana está ameaçada, todos os núcleos familiares menores também estão. Este filme está adaptado aos novos tempos, e mesmo sendo uma produção norte-americana, não apenas não ignora o resto do mundo (o patriótico “Independence Day”), como mostra que em uma família tão vasta como o H. sapiens as abordagens são diversas.
Assim, o nosso protagonista é um pai de família, mas também um investigador da ONU, que, parado em um congestionamento tão comum nas grandes metrópoles, vê a calmaria virar tempestade em um mero instante, como nos suicídios da cena inicial de “Fim dos Tempos”. Para vencer os zumbis – e qualquer inimigo, é preciso ser um homem de ação, mas também processar intelectualmente cada detalhe, como os segundos de contaminação e transformação de um vivo em morto-vivo, ali à sua frente, rebatendo-se.
Ao largo de sua jornada, Gerry Lane (Brad Pitt) se deparará com novas realidades, do Pacífico para a Ásia, do Oriente Médio para a Europa, sem contar uma batalha na Rússia que acabou descartada como desfecho. Como num thriller geopolítico, só ficamos a imaginar o grau de sucesso da curiosa solução anti-zumbi de um dos países mais fechados do mundo, a Coréia do Norte, mas vimos em todos os ângulos e pompa o estratagema à la Berlim, em qualquer hipótese um paliativo, erguido em Israel. O estado judeu parece em princípio uma Zion de “Matrix”, último reduto da resistência. Mas cai numa mistura de estupidez humana e inteligência coletiva zumbi – que assemelha-se taticamente às formigas amazônicas que se prendem umas às outras para flutuar.
Qualquer que seja a guerra, contra outro país, uma facção terrorista, a gripe suína, uma civilização extraterrestre ou o aquecimento global, conhecer com o que se está lidando é fundamental. Os zumbis aqui são atraídos por decibéis, mas não acusam a presença de humanos em certas condições. E força por vezes é vulnerabilidade, é a mensagem que darwinisticamente apregoa um cientista, levada adiante por Lane.
Na ciência, uma tese deve ser provada, com experimentos. A guerra se beneficia da ciência, mas segue seu ritmo, sem importar-se com provas empíricas. Quando a comprovação vem, no entanto, faz-se luz: após uma sequencia hitchcockiana, é então no filme que o ser desengonçado, descerebrado e faminto batendo pateticamente os dentes molares uns contra os outros pode virar motivo de escárnio. Aqui, é onde menos há dúvidas: o comportamento zumbi não tem traço de humanidade, e a comédia surge talvez da consciência, afinal, de nossa superioridade.
Os zumbis são essenciais desde o Z do título, mas este não é um filme de qualidade Z porque o que vemos são atitudes humanas, motivadas, claro, por zumbis. A resposta organizada que só guarnece quem é essencial, a cidade que se isola mesquinhamente e ainda assim recebe as levas de refugiados, o cara que tem a ideia que muda o resultado da guerra e só quer voltar a fritar panquecas.
Como em “A Hospedeira”, os créditos começam a rolar após uma virada de jogo implícita. Parece que nós temos agora ferramentas para consistentemente vencer o inimigo. Eventuais continuações de mesmo fôlego dependerão de desfazer, em algum grau, essa impressão.