Crítica: RoboCop (2014
O diretor José Padilha já mostrou ser um grande realizador tanto como documentarista (Ônibus 174, 2002) quanto como diretor de ficção (Tropa de Elite 1 e 2, 2007/2010). E sempre tratando de temas polêmicos de uma forma muito abrangente e inteligente. Esse primeiro trabalho do diretor lá fora tem seus méritos, mas nos deixa com a sensação de que poderia mais.
A trama se passa em 2028, e mostra uma nova forma de segurança pública com Robôs e drones operando no lugar de homens. Mas isso só acontece no exterior, já que os robôs não têm a simpatia e confiança do povo americano. Querendo reverter esse quadro, o CEO da OmniCorp Raymond Sellars (Michael Keaton) pretende lançar um híbrido homem/máquina.
O roteiro planta sementes para algumas discussões, como: uma máquina não sente o que um homem sente, então como confiar em suas ações? ; em contrapartida, com as máquinas em ação, muitas vidas humanas seriam poupadas; Quem teria o controle dessas máquinas, e quais vontades elas serviriam? ; tais questões poderiam servir como a ponta do iceberg rumo a um grande debate filosófico, mas o filme em nenhum momento parece querer se aprofundar nos temas.
Outra discussão que o longa aponta, é a participação da mídia perante o grande público, através do personagem de Samuel L. Jackson ( muito bem), que interpreta um jornalista manipulador .
As atuações estão muito coesas e satisfatórias, com destaque para Michael Keaton, que faz o presidente da OminiCorp como uma cara que deixa a parte humana de lado para se preocupar apenas com números e porcentagens. Gary Oldman, que dá vida a um cientista que vê no seu trabalho uma oportunidade de dar uma nova vida às pessoas, – e a cena do homem que tenta tocar violão com as próteses no lugar das mãos é bastante ilustrativa - mas se vê em uma discussão política, funcionando como uma marionete da empresa.
O ator Joel Kinnaman tem em algumas cenas o rosto coberto pelo capacete, mas nas cenas que exigem mais emoção ele deixa a desejar.
As cenas de ação são boas, mas poderiam ser melhores. Aliás, é bom o espectador tomar cuidado para não ser atingido, já que as cenas trazem um tiroteio exacerbado e sem direção.
A câmera na mão – característica documental de Padilha - está presente em boa parte do filme.
A trilha sonora do brasileiro Pedro Bromfmam aparece muito bem. Pontual e com uma dose de homenagem/saudosismo ao filme original (RoboCop, 1987) .
Com tantos temas à disposição e com um diretor que não tem medo de pôr o dedo na ferida, o filme prometia mais. Mas vale lembrar que essa é a estréia de Padilha em um blockbuster e com um grande estúdio por trás – talvez isso explique muita coisa. E o fato do diretor ter levado sua equipe e ter tido certa liberdade, já é uma vitória. Vale à pena.