O ovo de(em) Padilha, em co-autoria com Lispector, ou algo que se faz depois de revisitar Robocop no cinema.
"Ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. — O ovo vive foragido por estar sempre
adiantado demais para a sua época. — Ovo por enquanto será sempre revolucionário. — Ele vive dentro da galinha para que não o chamem de branco. O ovo é branco mesmo. Mas não pode ser
chamado de branco. Não porque isso faça mal a ele, mas as pessoas que chamam a ovo de branco, essas pessoas morrem para a vida. Chamar de branco aquilo que é branco pode destruir a humanidade. Uma vez um homem foi acusado de ser o que ele era, e foi chamado de Aquele Homem. Não tinham mentido: Ele era. Mas até hoje ainda não nos recuperamos, uns após outros. A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer "um rosto bonito", mas quem disser "o rosto" morre; por ter esgotado o assunto".
Co-escrevo com Clarice, porque invoco e deixo que goze em meu hipotálamo e teclado emprestado. Eu, também ressentido de não ser ovo, mas que o carrego suicidamente, como único ato revolucionário, depois da bolsa estourada e derramada. Vou escrever... Intimidado com ela, como qualquer um que queira rabiscar qualquer coisa, porque quando pensei em associar o filme Robocop (José Padilha, 2014) às incorporações germânicas nas legiões romanas, achei que inovava. Aí veio o oráculo, impassível, com suas virgens vestais rodopiando algoritmicamente (Google), e me indicaram o livro “A Legião Estrangeira”, com o conto “o ovo” e a epígrafe que precede tudo isso. E puxo mais para lá, porque legitimo minha birra crônica, regada por um monte de ficções que adestraram para essa necessidade de vencer as máquinas, que chamarei aqui de Síndrome de Kasparov (porque quero, ora!). O detetive Alex Murphy dos anos 80 e sessões da tarde contra a OCP e suas máquinas, tão humano e pouco silencioso, deve ter alguma culpa nisso, fato que recorro para explicar minha corrida para vê-lo com os olhos de alguns dias depois.
No ovo da serpente, conduzido por Bergman, impressões coletivas sustentariam um sistema de sobrevivência histórica, em que se flexibilizara o tal do próximo, humano, como o distante dos meus medos: uma paranoia tão lógica que assinaria ser biológica. Essa esquizofrenia justificou grupos que tentaram controlar as entradas no sistema, para garantir um reconhecimento de iguais que se perde quando se apaixona, por exemplo, dos quais nossos mentores hebreus foram hábeis em desenhar. Uma habilidade tão impressionante e simbioticantropofágica que se apropriou das técnicas mais avançadas em captar e reproduzir imagens, das sociedades que os abrigaram. Das eficientes e vaidosas linhas de comunicação babilônica, dos hieróglifos de calcular e fazer deuses, do ondas de Hertz na Alemanha que peitaria duas guerras, até o domínio do cinematógrafo e a hegemonia na internet de massa, lá eles, de Danieis a Zuckerbergs, fazendo cabeças.
Por que, então, a primeira viagem com os soldados “bárbaros” nas linhas de guerra romana? Sem afirmar que foi definitivo - na História como em tudo as coisas são sistemicamente microscópicas - a identidade romana, tão fundamental à lealdade dos seus generais, dependiam de laços familiares, de fluidos para encher a burra cultural. Quando outros sentires, por necessidade de sua própria gula, acometeram os filhos dos filhos dos comidos, o barraco desabou. Assim como, provavelmente, não é impune rechear as linhas de frente estadunidenses com latinos e outros oprimidos invisíveis.
A gula pelo mundo e Malintzes (intérpretes) necessários à compreensão das mensagens, quaisquer que sejam, criou, do norte para o sul da América, Carmem Miranda e Zé Carioca. As cores chamativas da primeira metade do século XX, num cinema em que se via tons de cinza (sem a saliência retrógrada dos 50 de agora há pouco – moralista, eu? Magina!) cedeu à curiosidade humana pelo movimento rápido, pelo testar os limites dos neurônios, pela fantasia da intangibilidade que nos une e representada no Rambo e suas versões seguintes, vingadoras (assemble!). Parece que a fórmula para vencer é insistir nisso e a sedução por esse tipo de filme é avassaladora.
Respondendo a mim mesmo, Padilha não entrou no sistema, via Metro-Goldwin-Mayer (ironia fina), à toa. Provou em cifras sua capacidade de fazer um filme doutrinário, como os dois tropas de elite, com ideias que remetem a essas internalidades nosseas. E esse mesmo cineasta, usando a fórmula que dá certo, faz uma profunda e inteligível crítica ao sistema brasileiro de definição de algozes, dando-lhes o benefício da dúvida e o contexto de sua vitimização. Em “o inimigo agora é outro”, não é o morro carioca que deve nos assustar, segundo José. Antes, aqueles que lucram verdadeiramente com a manutenção do mercado de vidas, blindados com ternos e programas de televisão. Quando Sandro sai do caixão de zinco para sua tela, pela linha 174, de ônibus, para delatar quem comprou o bilhete para que desse seu espetáculo na porta do higiênico e Global Jardim Botânico, algo foi precipitado. O documentário mexe, é informativo, dogmático como aquela verdade exige, mas se encerra no alcance e vícios de velocidade de informação. A linguagem deve ser sensível às nossas capas, lá do cerebelo, de super-herói. O Comandante Nascimento ensina a quem vai para as ruas em meados de 2013 que é possível ocupar a cúpula virada do Congresso Nacional.
E lá, no Robocop de 2014, o medo do criminoso doméstico, tão facilmente controlado pelo onisciência programada, questiona aqueles que vendem o medo. De um jeito interessante-recursalmente simples e convincente, entre efeitos estonteantes e uma linearidade argumentativa indelével. Vi, no começo, Samuel L. Jackson e seu cabelo heroicamente anacrônico dublando o rugido da MGM com malabarismos fonéticos para discursos impecáveis. E, no final - uma vírgula, espero – balbuciar sarcasmo de um patriotismo que não quer ver os holocaustos que provoca, como todo patriotismo. E o ciborgue entrincheirado, numa Sierra Maestra de concreto, humanamente armado para bater nas portas de senadores e bilionários... Embora a ideia não seja original, porque já se intuia isso nas primeiras versões de Verhoeven, há nessa uma subversão em que nos identificamos mais que antes. Antes não se questionava na escala e liberdade o papel da polícia e das intervenções militares. Um subalterno qualquer pode ser visto, fora das censuras dos donos de veículos, pela internet.
Se vejo isso, é porque a galinha não importa: interessa somente o ovo que carrega. E tantos ovos, de tantas formas, tem sido chocados simultaneamente, que não há raposa que as possa digerir. Snowden, Assange, Castro (o Caio), Francisco (o papa), Bolsonaro (o boçal), Tiririca (o melhor palhaço de nossa história) denunciam verdades engasgadas e fatualmente comprovadas, antes de serem desplugados. Vou arriscar, nem que seja para que possa me frustrar (esse sentimento tão retronutritivo), que virá um “Robocop 2: O Inimigo Agora é Outro”... Até porque o final deixa pontos de interrogação típicos de mudanças de ato no teatro. (O último parágrafo é de autoria da Clarice, que preferiu só ver o trailer mesmo, lá de Aruanda, e mudou o rumo da prosa porque ninguém entendia puerra ninguna de suas entrelinhas quânticas nas terras médias de Zuckerberg, nosso judateu predileto).