Nem mesmo dentre os fãs mais cativos de RoboCop (1987) haverá muitos que se sentirão ultrajados pela nova versão do filme, dirigida pelo brasileiro José Padilha (da série Tropa de elite) e lançada recentemente nos cinemas. É verdade que o original, posto em cena por Paul Verhoeven (O vingador do futuro, Instinto selvagem e Tropas estelares), tornou-se um dos maiores cults de todos os tempos e durante muito tempo foi difícil imaginar um remake decente para o robô grandalhão e suas chacinas sistemáticas. E essa era a sina que os produtores do filme tinham nas mãos – até descobrirem o trabalho de Padilha. Basta observarmos o estilo do diretor carioca para entendermos que a intenção do novo filme não é a de resgatar o espírito cyberpunk cru do original, mas sim a de dar à velha história fôlego novo, num filme ágil e barulhento, tenso e angustiante, bem à moda de Tropa de elite – mas é claro que com todo o sangue enxugado, já que se trata de Hollywood dedicado ao público jovem. Na nova história, Alex Murphy, mais jovial do que o Murphy original, é casado com uma bela mulher com quem tem um filho pequeno e seu parceiro não é Nancy Allen (Dublê de corpo), mas Michael K. Williams (Doze anos de escravidão), um policial de pouca participação na história e cuja função principal parece ser a de levar tiros à custa do herói. Some-se a esse drama o cientista interpretado por Gary Oldman (o comissário Gordon da trilogia Batman) e temos o quadrilátero afetivo em que se envolve o protagonista: o fator humano, o familiar, o profissional e o tecnológico. A tragédia de Alex Murphy se insere numa das temáticas favoritas dos norte-americanos, a do armamentismo e da segurança privada. Numa época em que debates sobre a violência e a invasão de privacidade estão em alta, os produtores americanos fizeram bem em escolher um diretor que tem competência demonstrada no assunto para coordenar um filme que, com ele, tende a se afastar da opinião enviesada que um diretor americano certamente imprimiria à produção. Falando nisso, não me parece totalmente verdade o que alguns veículos de comunicação revelaram sobre o trabalho de Padilha nos EUA. De acordo com esses veículos, Hollywood teria comido na mão do nosso diretor, mas ele próprio, em uma conversa com Fernando Meirelles, teria afirmado que nove em cada dez ideias que ele tinha eram rejeitadas, mas que mesmo assim o filme ficaria bom. Voltemos ao que interessa: de fato ficou. Padilha não teve o pudor de aderir à estética norte-americana e seu RoboCop lembra muito um Tropa de Elite tecnológico e sinistro. As qualidades da direção de Padilha são muitas e exigiriam uma segunda crítica, então me contentarei com deixar em suspense a ideia de quão (ainda mais) brilhante o projeto teria sido se todas as suas ideias tivessem sido acatadas. Seus ângulos de câmera, elementos internos de cena, planos-sequências... Muito pouco do que vemos no filme é comum ao estilo de Hollywood e, levando-se em conta o incremento que o estilo brasileiro frenético dá ao filme, esse é obrigatório para qualquer fã de filmes de ação ou do robô-policial ou de José Padilha ou de todos eles. Agora, sejamos justos: se Padilha é o hemisfério criativo da obra, o montador Daniel Rezende é o hemisfério lógico. O gatilho rápido de Rezende, com certeza um dos melhores montadores hoje, é notado logo nos primeiros minutos do filme e sem dúvida sua edição genial aperfeiçoa e coroa o novo RoboCop como um todo. Genialidade que pode ser verificada em sua melhor forma na cena de tiroteio no escuro. Além de evitar comparações com o original, o expectador deve dedicar suas forças à ação. As cenas de drama familiar pouco têm de profundidade devido à má interação dos atores, que parecem desconfortáveis uns com a presença dos outros, e a própria atuação do parceiro de Murphy quase nada tem de carga dramática. Ordinário mas eficientemente cômico é o papel de Samuel L. Jackson, o jornalista barato bem ao molde dos jornalistas brasileiros que vemos na TV com mais frequência do que desejávamos. Com Jackson, Padilha não deixa de alfinetar sua própria cultura, ainda que escondido debaixo das listras da bandeira norte-americana. Porém, nenhum desses maus jogos de atores compromete a qualidade do frenesi das sequências de violência e heroísmo, que estão alicerçadas nos veteranos Gary Oldman e Michael Keaton (o Batman de Tim Burton), além do razoável Joel Kinnaman. O roteiro tem várias falhas e superficialidades, mas a mise-en-scène de Padilha as resolve em quase 100%. Nas mãos de um diretor barato, elas transpareceriam e o remake poderia ter sido um vergonhoso desastre. Se não me engano, há algumas semanas um colunista do The Guardian escreveu que “RoboCop não seria um desastre apenas por um milagre”. Talvez hoje ele seja religioso, não sei.