"Missão dada é missão cumprida, parceiro!" A frase marco dos filmes mais bem sucedidos de José Padilha podem representar bem o que significa ele ter assumido a bronca de tocar esse novo filme. E é realmente importante entender que era uma grande missão. Robocop é um clássico, de 1987, do qual, no mínimo todo mundo já ouviu falar, conhece a musiquinha tema e e odiou as sequências e a série de tv que fizeram depois do sucesso.
Por isso tudo, reanimar o policial robô, num ambiente de trabalho com o qual não está habituado e ainda ter a "caraça" de dar sua própria versão pra ele pode sim ser entendido por um ato de coragem digno de um caveira.
Dito isso, já deu pra perceber que eu gostei do filme. Sim, gostei mesmo. Não é perfeito, e até mesmo não é tão bom quanto o original. É diferente.
José Padilha fez sua versão pedindo pra que evitassem comparações, já que é uma história nova, e um novo ponto de vista. De fato. Porém é impossível não tentar pelo menos ver se faz alguma referência ao passado.
Pra quem não lembra muito, o filme de 87 tinha Peter Weller no papel de Alex Murph. Era muito mais violento, a começar pela forma como Murph foi quase morto. Até aparecer o robô em detalhes, se fazia muito mistério, com imagens em primeira pessoa, onde se tinha a visão e informações bem mais discretas do banco de dados da polícia. Murph tinha uma parceira, Nancy Allen, e sua família deixou a casa onde viviam após o incidente, só aparecendo no filme nas lembranças que o já robô começa a ter após um certo tempo, já que é feito pra não ter memórias nem consciência. E era ainda carregado de cenas de humor, desde a alimentação parecida com papinha de bebê até a cena quem atira nas partes íntimas de um estuprador que usa a vítima como escudo, deixando um furo imenso na saia da moça.
Eis aí as principais diferenças para o novo. Como o trailer revela, Alex (agora Joel Kinamann) sofre um atentado onde seu carro explode, por ter descoberto uma rede de corrupção policial (tema suspeito, não?). Era o que um programa de criação de máquinas de guerra precisava para progredir, já que apenas eram usadas fora do país, por falta de confiança e aprovação dos americanos. Queriam algo que pudesse sentir o que um homem sentia, para não cometer atrocidades e matar apenas pelo princípio de ser ou não ameaça.
Assim, é feito um robô com consciências, emoções e lembranças, mas com o corpo de uma máquina. A cena em que Murph descobre o que sobrou de si mesmo e foi aproveitado para confeccionar a armadura é muito interessante.
Mesmo assim, todo esse recurso mental também estava sob controle da empresa, através do médico e cientista interpretado por Gary Oldman, que podia desligá-lo ou afetar suas lembranças a qualquer momento.
Sua família ainda permanece com ele, sendo a esposa a responsável por autorizar o procedimento, convencida pela equipe liderada pelo CEO da OminiCorp (Michael Keaton), ganancioso e sem escrúpulos.
A partir daí é tudo bem parecido, com Robocop indo às ruas, aclamado pelo povo e investigando de tudo até se ver na obrigação de desbaratar a trama que envolveu a tentativa de seu assassinato. E quanto mais ele mexe, mais bichos aparecem no seu caminho, e acaba descobrindo que não pode confiar em ninguém. (outra referência ao Tropa 2).
As lutas e ação são bem mais ágeis dessa vez. O carro da polícia de Detroit agora é uma moto feita pra ele, o que com certeza dá bem mais agilidade na caça aos bandidos. O ED-209 também está bem presente, agora em maior número, mas sem a atenção que tinha antes, onde protagonizou uma cena super violenta em que metralha acidentalmente um membro da OCP. Não passa de um instrumento de segurança, mas está mais moderno e bacana.
Detalhes legais como o barulho das pisadas e os bordões como "obrigado por sua cooperação" também foram lembrados.
Esse novo filme carrega mais na emoção, no dilema de Alex ao perceber que sua família vai ter que lidar com a nova situação. É difícil pra ele e mais ainda para a família, que presenciou o atentado e não consegue ter o contato prometido pela empresa quando o converteu em máquina. Há um bom investimento nessa área, deixando de lado o humor e as piadas que simplesmente não fazem parte do roteiro.
Outro ponto interessante é a presença de um programa de TV de extrema direita, apresentado brilhantemente por Samuel L Jackson, que tentar mover a opinião em favor dos interesses da OminiCorp.
Competente e bem resolvido, o novo Robocop chega pra provar que Padilha está pronto pra esse novo terreno, tendo ainda a audácia de criticar a política americana através dos seus textos. Conseguiu reunir e bem conduzir um ótimo elenco, efeitos de primeira e certamente vai conseguir uma ótima bilheteria no seu primeiro trabalho hollywoodiano. Primeiro porque, apesar de já ter dito que não quer dirigir a possível sequência, vai saber aproveitar uma boa oportunidade que deve surgir logo em breve pra ele.