Clube de Compras Dallas | Crítica
Apenas para situar o leitor, cresci nos anos 80. E o grande monstro da década foi a AIDS. Até o início dos anos 90, a AIDS era considerada uma doença de gueto e restrita aos Homossexuais e drogados. Chegaram a ser noticiados alguns casos de contaminação por transfusão de sangue contaminado mas, para o grande público, a doença estava restrita a estes grupos.
No Brasil, a capa da revista Veja com o já debilitado Cazuza, foi algo assustador para todos e que reforçava a característica de gueto da AIDS. Nos anos 80, os homossexuais eram quase que obrigados a ficarem restritos aos clubes destinados a este público e sofriam com a não aceitação do seu modo de vida pela sociedade em níveis absurdos (um bom (e esquecido) filme que trata desta cena nos EUA é o policial “Parceiros da Noite” com Al Pacino).
Voltando ao “Clube de Compras Dallas”, muito se foi falado da mudança física de Matthew McConaughey para interpretar o personagem principal Ron Woodroof. E realmente foi algo impressionante. Toda a fachada de galã de Hollywood desaparece e, com exceção da voz e do sotaque do sul dos EUA, é impressionante como a dedicação física e de interpretação do ator o fazem desaparecer em seu personagem. E é exatamente ai, na interpretação de Matthew McConaughey com o apoio de um surpreendente Jared Leto na pele do travesti Rayon, que o filme tem seu alicerce e consegue prender o espectador.
A história tem início em 1986 quando conhecemos o eletricista Ron Woodroof. Um típico sulista norte americano com suas posições homofóbicas e gosto por rodeio que tem como objetivo gastar o seu dinheiro com drogas, bebida e mulheres. Claro que em sua busca desenfreada pelo prazer, tem contato com drogas injetáveis e sexo com homens e mulheres sem nenhuma proteção.
Diagnosticado com o vírus HIV, os médicos lhe dão apenas 30 dias de vida em decorrência dos abusos com álcool e drogas e do seu já muito debilitado sistema imunológico.
Mas Ron não se conforma. Busca de todas as maneiras ter acesso ao ainda recente (para uso no combate ao HIV) AZT e consegue no mercado negro. Porém, nos anos 80, o AZT foi o primeiro remédio dedicado ao combate do vírus, ao contrário do coquetel de que hoje faz parte. Tomado sozinho e na medida que era indicada, o remédio destruía não somente as células contaminadas mas as saudáveis também.
Ao buscar a medicação no México, ele começa a tomar uma série de medicamentos não aprovados pelo FDA (Food and Drug Administration), órgão do Governo Americano que controla e libera o uso de remédios naquele país.
Após um tratamento inicial, Ron percebe que está muito melhor ao utilizar o coquetel mexicano do que com o AZT americano e, visando lucro, inicia uma rede de contrabando de remédios para venda nos EUA.
Sem apelar para saídas fáceis ou uma forçada “redenção” do personagem, vamos acompanhando a jornada de Ron Woodroof como ativista pelo direito à vida, mesmo que ainda visando o seu lucro. Sem se aceitar como bissexual, ele vai lutando contra tudo que faz dele a pessoa difícil e canhestra até alguém respeitado e admirado pelos portadores do vírus.
O trabalho de Matthew McConaughey e Jared Leto é magnífico e hipnotizante. Além das indicações ao Oscar de Ator e Ator Coadjuvante, respectivamente, ambos já faturaram os prêmios nestas categorias no Globo de Ouro e no SAG Awards (Sindicato dos Atores de Hollywood), transformando a dupla em fortes concorrentes ao prêmio máximo.
Um bom filme com uma ótima atuação de seus protagonistas e que vale, sem dúvida, ser conferido.