O título pode parecer bem estranho, mas desta vez não podemos reclamar, ele foi literalmente traduzido do título original em inglês. O Clube de Compras a que o título se refere existiu de verdade, e foi criado por Ron Woodroof para de certa maneira despistar a sua distribuição ilegal de medicamentos e "vitaminas" - como ele chamava - a outros pacientes com HIV positivo, como ele, que sofriam na década de ´80 com as incipientes pesquisas e testes para controlar a AIDS. Seus clientes, então, eram obrigados a se associar a este "clube de compras", para garantir a sua cota de suprimentos para controlar os diversos sintomas da doença.
Os roteiristas não escondem que tomaram diversas liberdades ao retratar a história, mas que as personagens e situações acrescentadas à história de Woodroof surgiram de entrevistas que fizeram com pacientes reais. Além do mais, a família do retratado se recusou a colaborar com informações sobre ele para a construção do roteiro. Acredito que no final das contas nada disso importa, porque toda ficção, seja retratada em livro, filme ou peça de teatro sempre será apenas "baseada" na vida real de alguém.
O que este Clube de Compras Dallas tem de especial não é a veracidade ou acuidade de suas informações, mas sim um roteiro muito bem trabalhado, uma direção segura do diretor canadense Jean-Marc Vallée - que nunca havia feito nenhum trabalho de maior destaque até hoje (seu filme mais conhecido é A Jovem Rainha Vitória, de 2009), e as espetaculares interpretações de McConaughey e Jared Leto.
Matthew McConaughey começou uma virada em sua carreira a partir de 2012, com a intenção de deixar para trás o rótulo de ator de comédias românticas e provar que podia interpretar de verdade. Ele chamou a atenção da crítica em Killer Joe - Matador de Aluguel, que só foi lançado nos cinemas e locadoras do Brasil ano passado, obteve muitos elogios por sua interpretação no recente Mud - Amor Bandido, mas a consagração definitiva veio com este Clube de Compras Dallas, que já lhe valeu o prêmio de ator do ano no Globo de Ouro e do Sindicato dos Atores dos EUA. O Oscar parece bem provável, e não será injusto nem inesperado tendo em vista os outros concorrentes. Há pessoas que só enxergaram a extrema dedicação do ator ao papel, que lhe exigiu emagrecer em torno de 40 quilos. Mas ele vai além de uma composição apenas física. Sua interpretação realmente consegue construir um personagem e seu amadurecimento. Aliás, de início é difícil conectar a plateia com um personagem tão rude, grosseiro e de certa maneira até desonesto.
É quando surge a personagem interpretada por Jared Leto - a transexual Rayon - com quem ele formará uma parceria por força das circunstâncias, e que fará com que o homofóbico Woodroof se torne mais humano e um verdadeiro amigo. Leto é conhecido de muitos como o vocalista da banda 30 Seconds to Mars, e suas incursões no cinema incluem participações em Réquiem para um Sonho, O Clube da Luta e Alexandre. Nada que pudesse antever uma interpretação tão boa como neste filme. Sua caracterização como Rayon é impagável, e muitos que conhecem Leto terão dificuldade de reconhecê-lo no filme. Não seria muito dizer que, apesar da qualidade da interpretação de McConaughey, Leto quase lhe rouba a cena. É outro Oscar quase certo - como coadjuvante masculino - após uma chuva de prêmios que vem acumulando este ano.