Se Adam fosse de fato o nome da personagem de Jonathan Rhys Meyers, o filme seria uma demonstração da doutrina espírita kardecista onde ele seria um médium, que simplesmente estaria incorporando os espíritos de David (o qual inclusive chega a conversar com a mãe deste) e de um falecido cantor de rock. Quando descobrimos que o verdadeiro Adam está na verdade morto em uma banheira na sua residência, não apenas é apontado um "furo" na trama do filme (sim, pois se ele chegou ao Hospital incorporando o espírito de David, e se auto-identificando enquanto tal, então como acabou sendo definido como Adam?) como também passamos a questionar toda a argumentação até então estabelecida entre os dois psiquiatras que cuidam do caso, pai e filha. O pai é ateu mas aceita que pode existir coexistência de identidades múltiplas num mesmo corpo, bem como lida bem com a possibilidade teórica da existência dos espíritos (afinal, não nos esqueçamos que quando surgiu o Espiritismo Kardecista estavam também sendo estabelecidas as bases das ciências humanas, e Kardec tinha uma pretensão à cientificidade). Paradoxalmente, sua filha, que é católica devota, não apenas desacredita da possibilidade real de identidades múltiplas (as quais, para ela, são sempre impostura ou psicose) como também não aceita a existência de espíritos, até que acompanha, acreditando-se incógnita, o trabalho de uma curandeira das montanhas, denominada apenas "vovó". Com a sequência do enredo passamos a saber que Adam/David é na realidade um pastor protestante, do sul dos EUA, cuja alma original teria sido retirada pela "vovó" em 1918 e que, desde então, passa a recolher espíritos de ateus e agnósticos que ele mesmo elimina de maneira violenta. Uma argumentação fraca e com evidentes inconsistências (o corpo do pastor não apenas não envelhece como parece demasiadamente saudável para alguém que está sem alma própria há mais de um século; a vovó já era velha em 1918, como estaria ainda viva em 2009; se o pastor perdeu a fé porque seu corpo persegue os ateus; a "vovó" simboliza evidentemente o culto da deusa Géia ou algum culto primitivo, pré-cristão, então porque questiona a menina quanto à sua perda de fé no Deus judaico-cristão) mas que cativa e consegue prender a atenção pela maneira com que as cenas são montadas, repletas de surpresas, sustos, suspense e até mesmo terror. Diversão descompromissada e que atende às expectativas, se conseguirmos manter o raciocínio lógico e o senso crítico "desligados".