Muito mais do que Max.
Quando o primeiro Mad Max foi lançado a 35 anos, pouco se esperava que tal filme desse início a uma franquia. Principalmente porque o filme não apresentava nada de tão diferente em seu contexto, talvez a única novidade de fato foi a presença do então desconhecido Mel Gibson, que alçou sua carreira ao estrelado graças a este filme. Com o sucesso, as continuações foram inevitáveis, Mad Max 2 e Mad Max: Além da Cúpula do Trovão foram sucessos de publico e crítica, deixando na história uma marca fantástica e louca de uma franquia pra lá de divertida.
Eis que em 2015, exatos 30 anos após o terceiro filme, somos presenteados com MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA. Roteirizado e dirigido também por George Miller, este quarto filme não almeja ser uma continuação e nem mesmo um reboot, mas uma produção que usa e abusa da experiência conquistada pela equipe técnica e avanço da tecnologia, e isso fazem muito bem. Neste episódio, temos o de volta o insano Max Rockatansky (Tom Hardy), que já é apresentando na telinha com uma cena bem bizarra, certamente uma pequena dose das loucuras que ainda veremos nas próximas duas horas de projeção. Max é capturado por um grupo e levado para um local chamado Cidadela, local comandado pelo bisonho Immortan Joe, um indivíduo frio, covarde e com o corpo plenamente deteriorado por uma doença que o faz depender de aparelhos para respirar. E já na cidadela que começamos a perceber o pedigree de Estrada da Fúria. A estrutura do local mostra os servos de Joe pintados de branco extremo, as partes mecânicas que movimentam o local possuem um roda girada com pessoas caminhando sobre ela e como não citar o ponto no qual o déspota se apresenta à população, nada menos que uma espécie de caveira esculpida em uma montanha que jorra água quando ele quer agradar seu "público".
Mas isso é apenas uma dose superficial, já que em seguida começaremos a perceber do que o filme será capaz. A primeira sequência de ação é protagonizada pela ótima Imperator Furiosa (Charlize Theron), que em posse de um caminhão nos apresenta as loucuras que Miller. Aqui já se percebe que a violência e as perseguições são dignas de nota pela ferocidade com que ocorrem, uma vez que carros capotam, explodem, viram pedaços nas batidas e ainda arremessam seus condutores e passageiros sem o menor pudor. Isso ajuda e muito a tornar o filme crível e impressionar com a qualidade com que as cenas foram preparadas e executadas, mais ponto positivo para Miller.
Por falar em veículos, estes são personagens chaves deste quarto filme, todos eles são frutos da uma imaginação alucinada e caótica dos designers de produção, pois suas modificações são completamente nonsense, deixando o filme ainda mais interessante. Algumas alterações soam impressionantes, como o carro-tanque ou mesmo o caminhão que, na verdade é um amontoado de peças e carcaças de veículos menores usadas para formá-lo. As estranhas motocicletas e as carenagens aplicadas aos veículos deixam cada um distinto dos demais, como se possuíssem DNA para torna-los visualmente único. Isso sem falar do veículo que tem indivíduos tocando tambor o tempo todo e um guitarrista pendurado diante de caixas de som e tocando uma guitarra que lança chamas, sensacional.
Nos quesitos técnicos, fica até difícil pontuar as qualidades, pois o filme surpreende e muito desde o início, a começar pela belíssima fotografia que oscila entre tons mais quentes e amarelados durante as cenas desérticas e tons azuis mais escuros quando há calmaria no período da noite, isso é destacável, pois mesmo durante as partes que se passam no período noturno, tudo é nítido e facilmente identificado pelo expectador. Na parte sonora, outra sagaz qualidade de Miller e sua equipe, somos norteados por musicas e sons dos mais diversos que ajudam e muito a intensificar a ação, isso é tão eficiente que me senti como uma cobaia do experimento conhecido com cães de Pavlov, pois uma certa música quando tocada, automaticamente coloca o cérebro em estado de tensão abrupta, pois, como ocorrido em cenas anteriores, sua reprodução foi nos mostrando do que é capaz. E não se assuste, pois isso se torna comum ao longo do filme e é brilhante. Gorge Miller também nos contempla com a qualidade provida com décadas de experiência, já que os planos que opta em usar deixam a ação tensa mas sempre plenamente compreendida pelo expectador, mesmo que seja em lutas, explosões ou perseguições.
O roteiro, apesar de ser um filme de ação também é competente, pois, ao contrário dos demais episódios da franquia, não usa apenas o petróleo/combustível com foco da história, isso esta lá de fato, mas a água é o elemento dominador, principalmente porque é com ele que o déspota da vez impele sua tirania. Em algumas situações percebemos como a perspicácia do diretor realça tal detalhe. Outra circunstância interessante é que, embora Max seja o protagonista, Furiosa é digna de nota, pois é uma personagem complexa e capaz de fazer coisas que nem mesmo o personagem principal acreditaria, inclusive na fantástica cena em que dá cabo do vilão... fantástico!
Estrada da Fúria não é um filme nem um pouco peculiar, mas uma produção com capricho, cara e que realça nitidamente o cuidado que a equipe técnica, sob a liderança do australiano Geroge Miller, teve ao longo das gravações. É um filme de ação competente, com sequências insanas que dão inveja a Michael Bay e seus Transformers, uma história envolvente, tensa e notavelmente funcional. Ao mesmo tempo que nos faz perder o folego, nos confunde com a mistura de elementos de jogos como Borderlands e Just Cause, mas ainda sim resultando em uma pérola cinematográfica inegavelmente eficaz e digna se ser assistida. Por fim, só tenho a dizer: Assista Mad Max! Assista Mad Max! Assista Mad Max! Assista Mad Max!