Se fosse para resumir em poucas palavras o que foi este filme, eu diria o seguinte: surtado e insano, sendo uma mistura uníssona de Cirque Du Soleil com Slipknot.
Mad Max: Estrada da Fúria é nostálgico, referenciando com honra os clássicos dos anos 80. É um grande espetáculo teatral de malabarismos das mais diversas formas, embalados por uma trilha sonora tão impactante capaz mesmo de colocar um palco móvel no meio de toda uma perseguição frenética, com direito a um guitarrista com sua guitarra de fogo, funcionando como um corneteiro de guerra deste mundo pós-apocalíptico. Ela é tão fantástica, combinando perfeitamente com a proposta de filme de insanidade e loucura total de um mundo perdido. Uma verdadeira ópera rock para nenhum amante do gênero botar defeito.
A história é simples: um mundo devastado pelas guerras do passado, na qual os que restaram brigam pelos poucos recursos disponíveis, como petróleo e água. Há vários clãs espalhados pelo imenso deserto que a Terra se tornou, onde em um desses grupos é que temos a presença de Immortan Joe, uma espécie de patriarca que domina a massa através do controle de água, um recurso escasso e tão valioso nesses tempos. E para proteger esses recursos, cada clã prepara fortemente seus lugares, armados até os dentes, para que ninguém ouse a tirar os recursos. E claro, nessa preparação é que temos a alma do filme: os carros. Pronto, já está formado o cenário de Mad Max.
Mas a beleza desta película não está na história simples e sim, no contar dela. O diretor George Miller simplesmente leva a loucura ao pé da letra, em que através da aceleração das imagens e closes nas expressões dos personagens nos passa a sensação de hiperatividade, na qual tudo tem que ocorrer rápido devido ao caos instaurado. Os personagens com os seus trejeitos agoniados e agitados nos remetem ainda mais a sensação de que as coisas mudaram bastante neste futuro distópico. As cenas de perseguição e destruição foram totalmente práticas, quase não tendo auxílio de computação gráfica, o que tornou o filme ainda mais realista. Ou seja, um filme tecnicamente muito bem pensado para a proposta a que se destinou.
E por falar em loucura, o que tem de mais louco neste filme? Sim, eles, os veículos, os colírios dos olhos, o coração e alma de toda esta loucura. Vão desde os grandes, como a Máquina de Guerra, pilotados por Furiosa (Charlize Theron), aos inusitados, como os espinhosos e motocicletas. E claro, os carros V8 que são até mesmo objeto de veneração pelos War Boys (Garotos de Guerra), que é como um deus a ser seguido. As cenas das motocicletas é uma das melhores fotografadas e emocionantes do cinema, um verdadeiro espetáculo de motocross aos fãs desta modalidade esportiva.
Não é só pura ação. Há muitas mensagens, inclusive ao atual momento que vivenciamos. São desde a preocupação com recursos naturais escassos, a dominação de uma classe dominante e opressora aos mais fracos até crenças radicais tornando até mesmo um motor um objeto de veneração, sendo capazes de morrer por este ídolo. Outra muito evidente, é a libertação da mulher, vista neste épica apenas como um mero objeto reprodutor. O desejo de liberdade feminina do filme é tão forte que de algum modo, as mulheres de Mad Max são duras, mas sem perder a ternura e a essência feminina.
Mad Max: Estrada da Fúria não se trata apenas do renascimento do mundo através de sucatas, mas sim de técnicas, crenças, culturas, política e valores. Reflete um mundo completamente possível, um futuro não muito distante do que temos hoje. Graças ao criatividade e trabalho duro de umas pessoas visionárias é que ainda podemos ter não somente grandes produções hollywoodianas com explosões, mas sim, de podermos nos deleitar com uma aventura tão empolgante e nostálgica como Mad Max: Estrada da Fúria. “Brilhantes e cromados” sejam os que puderam testemunhar essa obra da 7º arte.