Nina é a ovelha negra dos filmes nacionais, junto com alguns outros, como aquele com o Caio Blat, que eu esqueci o nome. Ovelha negra no sentido de possuir um estilo e um enredo diferentes em relação à produção predominante no Brasil. Não possui toques regionalistas e não trata da miséria e da criminalidade. Também não é uma comédia com atores globais de novela. Nina é um drama psicológico, livremente inspirado na obra Crime e Castigo, de Dostoiévsk, o que por si só já é uma grande mudança em relação aos longas-metragens nacionais. Nina parece ser uma jovem que, devido à sua intensa sensibilidade, sente toda a angústia e claustrofobia de viver numa grande cidade (que é São Paulo, mas poderia ser Berlin, Nova York ou Tóquio). E sua vida particular só faz contribuir para aumentar seus pesadelos: Nina pula de um emprego para o outro, e a proprietária do quarto em que ela ameaça despeja-la a todo o momento se ela não lhe pagar o aluguel. A proprietária, vivida por Myriam Muniz, é memorável, parecendo uma vilã de algum filme mudo alemão, alguém que parece não sentir nenhum remorso pelas maldades que comete e privações que impõe a Nina. O filme vai crescendo em loucura, ganhando contornos cada vez mais paranóicos, culminando com o assassinato da velha por Nina e seus pesadelos se tornando cada vez mais reais. Os personagens de seu pesadelo, em que um cavalo é espancado e que se repete durante o filme, agora aparecem em seu quarto para acusa-la, e uma série de acontecimentos desconexos parecem se relacionar com seu drama. Cada cena do filme é cuidada para passar o efeito do estado mental de Nina, inclusive a inserção de desenhos em preto e branco de cenas de violência imaginadas por ela, violência tipo mangás japoneses. Outro ponto forte do estilo do filme é com relação aos atores convidados. Vários atores de primeira linha do cinema nacional aparecem fazendo pequenas participações: De minha parte, destaco Lázaro Ramos e Matheus Nachtergaele (será que escrevi certo??) como dois pintores numa cena poeticamente trivial e Maria Luiza Mendonça (maravilhosa) que surge nos pesadelos com o cavalo. O filme parece realmente um grande delírio de uma pessoa desencontrada. A opressão sentida por Nina não vem do ambiente, mas de sua própria mente. Em Nina, São Paulo é uma alucinação, mas não criada por Nina, e sim pelas milhares de pessoas que ali sonham, vivem, morrem, amam... E matam. Está carregada de sentimentos opostos, contraditórios e, assim, é uma cidade viva. E no fim, é disso que se trata uma cidade: Um emaranhado de sentimentos encobertos pelo verniz da racionalidade e da sociabilidade. Um abrigo para monstros, cidadãos pacatos e sombras ameaçadoras. E cada indivíduo a experimenta de uma forma diferente. Existem aqueles que se aliam à massa e se confundem no meio dela; existem aqueles que, rejeitados pela cidade, vingam-se dela ferindo-a e são chamados criminosos, loucos, perdidos, mas que ainda podem ser recuperados; e existem aqueles que subvertem a própria lógica da cidade, moldando-a de acordo com sua visão e vivendo a seu modo: São os extraordinários, que estão excluídos das promessas da cidade e só podem contar consigo mesmo e com os crimes que cometem contra a sociedade, contra a sua própria natureza e contra Deus, enfim.