Após a magnífica e emblemática trilogia “O Senhor dos Anéis” (baseada na obra do visionário “J.R.R. Tolkien”), não há como questionar a capacidade de Peter Jackson, gênio como diretor. E muito menos agora, com o tão aguardado lançamento de “O Hobbit – Uma Jornada Inesperada”, um filme que, apesar de seus defeitos, proporciona um grandioso espetáculo visual nos levando de volta à lendária Terra-Média do mundo criado pelo mestre da literatura.
Desta vez, a trama é mais pontual, não atingindo níveis globais como em “O Senhor dos Anéis”. “O Hobbit” conta a trajetória de Bilbo Bolseiro, que enfrenta uma jornada épica para retomar o Reino de Erebor, terra dos anões que foi conquistada há muito tempo pelo dragão Smaug (que não conseguimos ver inteiramente, por sinal). Levado à empreitada pelo mago Gandalf, o Cinza, Bilbo encontra-se junto a um grupo de 13 anões liderados pelo lendário guerreiro Thorin Escudo-de-Carvalho. Assim, o pequeno grupo de valentes guerreiros se vê obrigado a enfrentar criaturas sombrias para prosseguir em sua sinistra e inesperada jornada.
No entanto, o problema de dividir um livro pequeno e não muito consistente (isso não é uma crítica) em três partes rapidamente reflete na tela, quando “O Hobbit – Uma Jornada Inesperada” apresenta um ritmo narrativo lento, esticado e ,até mesmo, demasiado em sua introdução. Com isso, nem mesmo os ótimos artifícios utilizados por Jackson conseguem envolver – para falar a verdade, demora um pouco mais de 1 hora para realmente começarmos a nos empolgar (mas isso não quer dizer que, neste período inicial, a narrativa não possua momentos interessantes, aliás, muito pelo contrário, pois o prólogo e alguns flashbacks são incríveis). Resumindo, duvido muito que a trilogia “O Hobbit” consiga se desenvolver estruturalmente bem até o final neste compasso, e certamente não haverá comparações com “O Senhor dos Anéis”. Afinal, dois filmes já estavam de bom tamanho para esta nova aventura na terra média, mas, já que farão, acredito que Jackson e sua excepcional equipe não venham a, de fato, decepcionar.
Bom, mesmo assim, ainda há muita coisa boa para comentar.
Embora não tenha tido a oportunidade de assistir a projeção em “48 fps”, é notável que “O Hobbit” possua um requinte especial, por assim dizer, em relação aos demais filmes. Afinal, fica clara a evolução tecnológica natural até aqui, onde o 3D, apesar de não ser tudo o que se esperava, acrescenta um ótimo diferencial ao filme. A belíssima fotografia, de Andrew Lesnie (que merece Oscar, diga-se de passagem), aliada a ótima direção, ressalta de maneira incrivelmente perceptiva os exuberantes campos da Terra-Média (filmados na Nova Zelândia), fazendo com que, definitivamente, tenhamos a sensação de “sair de outro mundo” após deixar a sala de cinema – algo semelhante a assistir “Avatar”. E não há como deixar de mencionar a magnífica direção de arte, que, juntamente com a impecável maquiagem e os primorosos figurinos, torna “O Hobbit” esteticamente imperdível (seu favoritismo aos “prêmios técnicos”, deste ano, é inquestionável. Já os prêmios como “melhor filme”, “melhor diretor”... aí é outra história que acredito que esta produção não venha a contar). Além de tudo, os efeitos visuais nunca tiveram tão ricos em detalhes e, por vezes, esplêndidos.
Assim, ao passo que apreciamos todos os recursos que a obra possui, a narrativa, aos poucos, vai se desenvolvendo em meio a momentos de aventura, cantorias, extensos diálogos e piadinhas (algo que a não víamos antes – evidenciando a grande diferença entre o contexto). O protagonista, Bilbo Bolseiro, interpretado pelo carismático Martin Freeman, consegue convencer e proporcionar alguns dos melhores momentos; já o mesmo não serve para os demais personagens, dos quais nenhum possui um grande momento ou até mesmo alguma fala especial (exceto Thorin Escudo-de-Carvalho, que chega a ser tão interessante quanto no livro e tem lá seus momentos). E não, não estou me esquecendo de Gandalf, o cinza, que a esta altura já se tornou um mito do cinema.
Então, a jornada leva-os a terras traiçoeiras repletas de Goblins e Orcs, Wargs mortais e Aranhas Gigantes, Transmorfos e Magos (não precisa nem mencionar em detalhes o perfeito trabalho de maquiagem feito nas desprezíveis criaturas). Embora o objetivo aponte para o Leste e ao árido da Montanha Solitária, eles devem escapar primeiro dos túneis dos goblins (onde ocorre a sequência mais fantástica e empolgante do filme), onde Bilbo encontra a criatura que vai mudar sua vida para sempre, Gollum (um dos personagens mais fascinantes da trilogia, imortalizado pelos sempre precisos movimentos de Andy Serkis). A sós com Gollum, às margens de um lago subterrâneo, o despretensioso Bilbo Bolseiro não só descobre sua astúcia e coragem, como também ganha a posse do "precioso" anel, que está ligado ao destino de toda a Terra-Média, de uma maneira que Bilbo não pode imaginar.
Felizmente, o clímax da superprodução convence – e até emociona – muito, cujo foco narrativo centra-se na rivalidade entre Thorin e o líder dos monstruosos Orcs. No mais, a primeira parte da trilogia “O Hobbit” serve como aquecimento para os próximos dois capítulos, deixando tudo em aberto. Claro que poderia ter uma narrativa menos arrastada e com um ritmo muito melhor – e não há dúvidas que “três partes”, voltando a dizer, soam desnecessárias –, porém, como grande fã, é inevitável a ótima sensação de revisitar este mágico universo, magnífico como sempre.
Enfim, acredito que os fãs gostarão desta jornada inesperada.