Livros, memórias, desapegos e mudanças
O filme Livros Restante (2025), da diretora Marcia Paraiso, constrói a sua trama narrativa a partir de cinco livros, com dedicatórias pessoais, que a protagonista Ana Catarina (Denise Fraga) ganhou de pessoas queridas e dos quais precisa se desfazer porque irá se mudar da Praia da Barra da Lagoa, Florianópolis, para Portugal e iniciar uma nova etapa na vida.
Logo nas cenas iniciais do filme somente restam cinco livros empilhados numa estante quase vazia.
São eles: Ana Cristina Cesar, A teus pés (1982); Hilda Hilst, A obscena senhora D (1982); Marcelo Rubens Paiva, Feliz Ano Velho (1982); Valter Hugo Mãe, Silencioso Corpo de Fuga (1996); e Naomi Klein, A doutrina do choque (2007).
A protagonista resiste em desapegar das cinco obras que, para além de seus conteúdos literários, carregam uma forte carga de memória afetiva expressa nas dedicatórias escritas para ela, pelas pessoas que a presentearam em momentos singulares de sua vida.
A forma que encontrou para realizar esse desapego aos livros foi devolvê-los às pessoas que a presentearam e pedir que guardassem como lembranças das palavras escritas em cada dedicatória. A surpresa que vai se colocar em cada entrega é que as pessoas já não têm a memória do que escreveram e reagem a essa memória cada um ao seu modo de vida do presente.
Todos os cinco encontros são emblemáticos, mas o que me tocou de perto foi o da devolução do livro Feliz Ano Velho para o personagem pescador, o preto Joilton (Marcelino Gonzaga). Ana Catarina e Joilton, amigos de infância, guardam segredos, amores e diferenças e aproximações que singelamente o roteiro do filme trabalha até o seu final, principalmente a importância da literatura. O amor não correspondido pelas diferenças sociais se realiza de forma terna.
No almoço de despedida final da família e amigos explode o conflito familiar de forma surpreendente, libertadora que ao final será arrematado por uma tragédia.
O tempo passado é cobrado no presente e delineia novas possibilidades de futuro. Isso me traz à lembrança o projeto de lei que tramita atualmente na Câmara de São Paulo pedindo a troca do nome da Rua Peixoto Gomide, no bairro da Bela Vista, para o nome da filha assassinada Sophia Gomide. No conflito da família Peixoto Gomide, ocorrido em 1906, o pai assassinou a filha e se suicidou, por ser contra o seu casamento. Em 1914, a própria Câmara de São Paulo homenageou o emérito político da elite paulista com o nome da rua, que agora sofre uma revisão história baseada no conceito de feminicídio.
Já em Portugal, Ana Catarina vai à livraria e compra o livro de autora portuguesa Madalena Sá Fernandes, Leme (2023), uma autobiografia sobre violência doméstica, que se torna o primeiro livro da sua nova estante vazia, no qual escreve uma autodedicatória e recomeça sua nova vida.
E você? Se fosse fazer uma mudança radical de vida teria algum livro com dedicatória para devolver para alguma pessoa querida?