Se Eu Fosse Você 3
Críticas AdoroCinema
2,5
Regular
Se Eu Fosse Você 3

Em Se Eu Fosse Você 3, a clássica troca de corpos se renova mas carece do charme dos filmes de Glória Pires e Tony Ramos

por Júlia Barbosa

Tem problema em assistir a um filme que você já sabe como acaba? O sucesso da franquia Se Eu Fosse Você demonstra que milhares de espectadores não se incomodam, contanto que dê para se divertir no caminho. Vinte anos depois do original,Se Eu Fosse Você 3 entra em cartaz apostando que um raio pode cair três vezes no mesmo lugar. E, nesse caso, o fenômeno não é apenas justificar mais uma troca de corpos, mas sim voltar a arrancar gargalhadas nas salas de cinema.

No novo capítulo, Glória Pires e Tony Ramos reprisam os papéis icônicos de Helena e Cláudio, mas têm uma pequena folga das mudanças sobrenaturais. Desta vez, é Bia (Cléo Pires) quem precisará viver na pele de seu parceiro, Aquiles (Rafael Infantes), até solucionar a crise no relacionamento deles. Apesar de se tratar da mesma proposta, a continuação se esforça para não depender de referências aos filmes anteriores.

Se Eu Fosse Você 3 não quer se apoiar na nostalgia dos primeiros filmes

Buena Vista International

A nostalgia é um dos maiores ativos da indústria cinematográfica e, nos últimos anos, os estúdios estão apostando nela mais do que nunca para vender mais ingressos. Graças a essa tendência, muitas obras com desfechos amarrados vêm sendo reabertas para capitalizar em cima de personagens queridos pelo público. Porém, ainda que Se Eu Fosse Você 3 esteja sendo lançado num ano repleto de reboots, remakes e afins, a continuação não parece uma “ressurreição forçada” de uma história 100% fechada, como é o caso de Avenida Brasil 2, por exemplo.

Isso porque, a ideia de transformar a franquia Se Eu Fosse Você em uma trilogia já circula há anos e foi originalmente pensada para sair pouco tempo depois do lançamento do segundo volume, em 2009. Nesse caso, a escolha de uma sequência-legado com um fôlego de décadas cai melhor do que uma repetição imediata de um formato bem-sucedido.

Foi pensando nesses dezessete anos que se passaram que a diretora Anita Barbosa estruturou o terceiro filme. A cineasta trabalhou no 1 e no 2 sob a direção de Daniel Filho e agora assumiu o comando da produção com o objetivo de trazer frescor para uma história que o público brasileiro conhece tão bem. De fato, eu não saí da sessão com a sensação de ter visto um “copia e cola” das piadas e cenas icônicas de Helena e Cláudio, até porque a progressão narrativa dele é bem diferente. Porém, o esforço para não fazer mais do mesmo fez com que a história nadasse em uma zona de conforto um tanto quanto aquém ao que torna os anteriores tão bons.

Algo que me chamou a atenção é que o trabalho de comédia física não é tão acentuado aqui. Nos primeiros filmes, o humor era bem mais focado no exagero teatral das partituras corporais dos atores, intensificando a anormalidade e o ineditismo da situação na qual eles estavam inseridos. Já agora, ainda que Rafael Infante e Cléo Pires assumam a voz e a postura um do outro, a piada raramente advém do desconforto físico que o contexto sobrenatural exige, quase parecendo simples demais estar em um corpo que não é o seu.

Dito isso, Rafael aproveita essa naturalidade para brincar com os trejeitos de Cléo muito à vontade. A diversão do ator consigo mesmo em cena transparece para o espectador, fazendo com que assisti-lo seja muito prazeroso.

Sequência de Se Eu Fosse Você não repete piadas machistas dos anos 2000

Vale destacar que foi um alívio, em pleno 2026, perceber que houve um cuidado nítido para não fazer uma troca de corpos dependente de marcadores de papéis de gênero. Se Eu Fosse Você e Se Eu Fosse Você 2 são povoados de piadas misóginas e estereótipos que não têm mais — e nunca deveriam ter tido — espaço no cinema. A direção de Barbosa demonstra que é totalmente possível estabelecer comparações entre as vivências de um casal através de outros recursos que não as convenções sociais retrógradas.

Os medos, os desejos e os traços de personalidade de Bia e Aquiles são pontos de contraste muito mais importantes do que as “coisas de homem” e as “coisas de mulher” que cada um deles faz. Bia precisa desafiar seu medo de altura paralisante para trabalhar no parque de esportes radicais onde Aquiles é guia turístico. Por sua vez, ele se desafia a aprender a cozinhar para evitar que o restaurante onde a namorada é chef seja prejudicado.

Participação de Glória Pires e Tony Ramos deixa gostinho de quero-mais

Buena Vista Pictures

Outro ponto que funciona bem para inovar a proposta de Se Eu Fosse Você é que a protagonista de Cleo Pires conta aos pais e à filha, Maria Clara, que sua mente está alojada na cabeça de seu parceiro. Essa escolha evita a repetição de fórmulas passadas e deixa claro que Bia e Aquiles possuem um relacionamento distinto do de Cláudio e Helena, ainda que eles estejam enfrentando o mesmo problema que eles viveram anos atrás.

Tal decisão abriu espaço para os demais personagens, destaco aqui que a inclusão da filha adolescente de Bia — muito bem interpretada por Valentina Daniel — no jogo traz um ponto de vista refrescante, oferecendo comentários objetivos que balanceiam a confusão do casal.

Buena Vista International

Mais importante, Bia descobrir que os pais trocaram de corpos quando ela era criança foi a porta para a intervenção de Tony Ramos e Glória Pires na história. Na trama, Helena e Cláudio viajam para a China para uma segunda lua-de-mel, e aparecem pontualmente em algumas cenas demonstrando preocupação com o modo pelo qual a filha e o genro irão sair dessa situação e, ao mesmo tempo, tentando confiar que os jovens se resolverão sozinhos para eles que possam aproveitar as merecidas férias.

Nessas três ou quatro cenas fica nítido que os protagonistas originais são indispensáveis na franquia. Os veteranos não têm uma parte tão ativa na trama quanto os pôsteres estampados com o rosto deles dão a entender e estão creditados como participações especiais. Contudo, foi muito legal ver, mesmo que brevemente, o que mudou e o que se manteve na relação de Helena e Cláudio na maturidade. Fiquei com um gostinho (amargo, digamos) de quero-mais, pois me vi muito mais interessada nas interações entre eles do que no conflito principal.

O longa sente muito a falta do carisma e dos diálogos afiados de Glória e Tony, ainda que Cléo Pires e Rafael Infante sustentem uma parceria simpática.

Se Eu Fosse Você 3 não dá nenhum passo além de uma experiência cinematográfica que eventualmente se torna agradável conforme a dinâmica entre os personagens vai se encaixando após um conflito não tão bem estabelecido no primeiro ato. Faz sentido ater-se a um roteiro simples e objetivo quando falamos de uma sequência legado. Porém, não assumir riscos, principalmente frente a antecedentes tão emblemáticos, faz com que ele pareça raso aos olhos do público.

*O AdoroCinema assistiu ao filme no Festival do Rio 2026.

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