Não concordo com a descrição do filme que diz "uma família pouco tradicional se reúne às vésperas do Natal para cuidar da mãe doente."
Não concordo, em primeiro lugar, porque a família retratada no filme é exatamente como a minha própria família, como a sua... O que acontece é que a família é descrita e apresentada num recorte de tempo e espaço específico em que estão se despedindo da matriarca, que é quem agrega e centraliza a família, quem a mantém unida. Não há tempo e nem disposição de ninguém para ser hipócrita, para "manter as aparências".
A família é tão típica que o pai está "caduco", o irmão é gay (nitidamente o filho mais próximo à mãe, como de costume), há duas irmãs que mantém uma rixa, uma "birra", que a mãe precisa resolver antes de morrer, e a terceira irmã é a "malucona" da família, uma hippie, completamente extemporânea, e que está grávida, próxima ou mesmo após os 40 anos, de um homem que não é seu marido. Não é uma "família Doriana", é uma família real, do mundo real! Gente como a gente!
Em segundo lugar, a mãe não "está doente". Ela está morrendo! É uma situação total e completamente diferente, cuja magnitude faz com que caiam as máscaras e cada membro da família se revele.
Preparar e acompanhar a morte da própria mãe é algo único, não há como comparar com qualquer outra experiência. O filme consegue demonstrar com clareza exatamente como é este processo, inclusive se utilizando do recurso do calendário para demonstrar a evolução do desenlace final da protagonista.
Há de se ressaltar a performance da grande Helen Mirren, que, para quem não lembra, é uma grande, uma monumental atriz inglesa, que começou no teatro e já fez de tudo, desde Cesônia, a esposa de Calígula, no filme hoje considerado cult, até a rainha Charlotte. Tem um Oscar, quatro Emmy Awards, 3 globos de ouro e 2 prêmios de melhor interpretação feminina em Cannes.
Eu, pessoalmente, ressaltaria sua atuação impecável em "Uma estranha passagem em Veneza" (1990), um de meus filmes favoritos.