Kokuho se diferencia desde o primeiro momento por mergulhar em um universo cultural muito específico e pouco explorado no cinema contemporâneo: o kabuki. Não é apenas um filme ambientado em uma tradição japonesa, ele transforma essa tradição em centro dramático, estético e simbólico da narrativa. Ao acompanhar décadas na vida de seu protagonista, a obra se propõe a discutir busca pela perfeição, rivalidade, legado e o peso da arte como missão de vida. Há ambição em cada escolha. Há grandiosidade nas cenas de palco. Há intenção clara de construir um arco dramático robusto. No entanto, apesar da força visual e do impacto acumulativo, a estrutura fragmentada impede que o drama amadureça de maneira plenamente orgânica. O filme emociona, mas poderia atravessar ainda mais fundo.
Dirigido por Lee Sang-il e adaptado do extenso romance de Shuichi Yoshida, Kokuho já nasce como um projeto ambicioso. O livro original ultrapassa 800 páginas e acompanha seus personagens ao longo de décadas, o que naturalmente impôs um enorme desafio à adaptação. O próprio processo de construção do roteiro foi apontado como uma das etapas mais complexas do projeto, justamente por condensar uma narrativa tão extensa em menos de três horas.
Os protagonistas, Ryō Yoshizawa e Ryūsei Yokohama, passaram por quase dois anos de treinamento para que as cenas de kabuki tivessem autenticidade. E essa dedicação aparece em tela. Existe uma imersão evidente tanto nos palcos quanto nos bastidores. O compromisso com a tradição é visível em cada gesto, em cada postura e, principalmente, na maneira como o corpo se comporta sob o peso da maquiagem e das vestimentas.
O filme foi escolhido para representar o Japão no Oscar, apareceu em algumas listas preliminares, mas acabou fora da categoria de Melhor Filme Internacional, recebendo indicação apenas em Melhor Maquiagem e Penteado. A escolha não é aleatória. A maquiagem aqui não é ornamento: é símbolo de transformação, identidade e até de contradição moral. Além disso, o projeto passou por uma redução significativa de duração, o primeiro corte tinha cerca de quatro horas e meia e foi reduzido para 2h54. Essa informação ajuda a entender algumas decisões narrativas que impactam diretamente a experiência final.
Kokuho constrói seu arco dramático com foco na busca pela perfeição. Desde o início, entendemos que o protagonista está disposto a entregar tudo à arte. O treinamento é doloroso, a disciplina é rígida, a exigência é constante. O filme estabelece com clareza que o caminho escolhido é árduo. No palco, a grandiosidade impressiona. Há uma atenção especial às cenas de apresentação, que recebem proporção quase monumental. O espetáculo é hipnotizante. A leveza aparente das performances contrasta com a rigidez do olhar e a concentração extrema exigida pelo kabuki.
É nesses momentos que o filme encontra sua maior força. A arte é retratada como algo sublime, quase transcendental. E a maquiagem, justamente o elemento reconhecido pela Academia, funciona como extensão dessa ideia. No palco, sob camadas de tinta e perucas elaboradas, os personagens alcançam a perfeição. Fora dele, despidos dessa máscara, revelam ambiguidades, fragilidades e decisões questionáveis.
O problema surge quando o filme precisa sustentar, fora do palco, os conflitos que ele mesmo estabelece. A rivalidade entre Kikuo e Shunsuke começa com força. O contraste entre talento herdado e talento conquistado é interessante. A tensão existe. Há pequenas faíscas, provocações, disputas por reconhecimento. Mas esse embate raramente atinge um nível de profundidade emocional que faça o espectador sentir o peso dessa competição ao longo das décadas. Quando chegam os momentos de ruptura e reconciliação, o impacto é menor do que poderia ser.
O mesmo acontece com o arco do sacrifício. O filme afirma que a arte exige renúncia. E, de fato, vemos perdas: o afastamento de um interesse amoroso, a relação distante com a filha, a ruptura com o amigo, a morte do mentor. Porém, nem todas essas perdas são elaboradas com a intensidade necessária para construir um verdadeiro senso de sacrifício. Algumas são naturais à passagem do tempo. Outras, que deveriam ser emocionalmente devastadoras, acabam pouco desenvolvidas. O resultado é um protagonista consumido pela busca da perfeição, mas cuja dor não é plenamente sentida pelo público.
Essa fragilidade está diretamente ligada à estrutura episódica. Os saltos temporais são frequentes e, em muitos momentos, abruptos. Há uma necessidade constante de contextualizar o espectador, o que torna alguns diálogos excessivamente explicativos. Como a história cobre muitos anos, vários conflitos se desenvolvem fora de cena. Isso dilui o amadurecimento dramático e enfraquece arcos que poderiam ser devastadores.
Ainda assim, o filme consegue prender. Mesmo com quase três horas, a experiência é envolvente na maior parte do tempo. O impacto não vem por uma virada brusca, mas pelo acúmulo. A sensação de tempo passando, de legado sendo construído, de uma vida inteira dedicada à arte, se instala gradualmente. E nisso o filme acerta. O problema é que, com todo o material que tinha em mãos, poderia ter alcançado um soco emocional mais claro e definitivo.
Kokuho é um filme de grande ambição e evidente dedicação. Ele celebra o kabuki com respeito e grandiosidade, constrói um protagonista movido pela obsessão artística e propõe reflexões sobre tradição, identidade e legado. Funciona como espetáculo cultural e como experiência sensorial. Emociona pelo acúmulo, pela persistência, pelo peso dos anos.
Mas também carrega as marcas de uma adaptação difícil. A estrutura fragmentada, os saltos temporais e o desenvolvimento desigual de seus principais arcos impedem que o drama alcance todo o seu potencial. Há material para algo ainda mais profundo. Há temas fortes que poderiam ter sido explorados com maior intensidade.
No fim, Kokuho é impactante, mas não avassalador. É grandioso na imagem e sincero na intenção, porém irregular na construção dramática. Um filme que prende, que impressiona e que tem muito a dizer, mas que, ao tentar abarcar uma vida inteira e uma tradição centenária, acaba sacrificando parte da densidade emocional que poderia torná-lo inesquecível.