"O Caçador Evolui: Predador - Assassino de Assassinos é a animação brutal e surpreendente que reascende a franquia com criatividade e coragem"
Quando Predador: Assassino de Assassinos foi anunciado, muitos torceram o nariz. Não apenas por ser mais um derivado de uma franquia que andava patinando criativamente há anos, mas porque a novidade chegava em forma de animação e, mais ainda, como uma produção direta para o catálogo da Hulu/Disney+. Era fácil ignorar ou subestimar o projeto, ainda mais sabendo que Dan Trachtenberg — que havia surpreendido o público com Prey — teria pouco tempo para desenvolvê-lo, já que ele também está envolvido com Predador: Badlands. Mas a desconfiança inicial rapidamente foi deixada de lado após a estreia. A animação se revelou uma das grandes surpresas do ano, consolidando Trachtenberg como um dos nomes mais criativos e relevantes na nova fase da franquia Predador.
É preciso reconhecer que o diretor já havia mostrado um domínio impressionante do universo em Prey, ao dar um novo sopro de vida à saga, focando em uma narrativa mais primal, crua e tensa, explorando o embate entre o Predador e uma jovem indígena em meio à natureza selvagem. Mas com Assassino de Assassinos, ele não apenas confirma que seu acerto anterior não foi coincidência, como eleva a própria mitologia da franquia, expandindo horizontes e apostando em uma ousadia que poucos se arriscariam: entrelaçar diferentes épocas, culturas e visões de mundo em uma única narrativa coesa, sem cair na armadilha das antologias soltas e desconexas.
O longa animado, claramente inspirado estética e narrativamente por sucessos como Arcane e Homem-Aranha no Aranhaverso, aposta alto ao reunir três protagonistas — Ursa, Kenji e Torres — de contextos históricos completamente distintos: uma guerreira viking, um samurai e um soldado da Segunda Guerra Mundial. A proposta de juntar esses personagens em um único enredo poderia facilmente parecer forçada, mas o roteiro surpreende ao costurar os três núcleos com fluidez, usando o elemento em comum — a caçada do Predador — como fio condutor. A escolha de não tratar cada arco como um capítulo isolado, mas sim como partes de uma mesma narrativa, confere dinamismo e densidade ao filme, além de ampliar ainda mais o escopo da franquia, que passa a explorar o conceito de "Predadores ao longo da história" de forma orgânica e instigante.
Há, sem dúvida, um destaque para cada segmento da história. A narrativa de Ursa, ainda que visualmente menos impactante, é a mais emocionalmente ressonante, apresentando uma personagem complexa, com motivações bem delineadas e que conquista o espectador rapidamente. O arco de Kenji, por sua vez, se destaca pelo esplendor visual e pelas sequências de ação, verdadeiros espetáculos coreografados com brutalidade e elegância. Já o episódio focado em Torres talvez seja o menos memorável em termos narrativos, mas é igualmente essencial para a construção do clímax e para a unificação dos três personagens. E é justamente essa união que culmina no embate final contra o Rei Grendel — um Predador em sua forma mais animalesca e destrutiva —, que, apesar de empolgante, peca por parecer um tanto apressado, como se o filme estivesse mais preocupado em preparar terreno para o futuro da franquia do que em encerrar satisfatoriamente o arco proposto.
Ainda assim, a ambição de Trachtenberg não pode ser ignorada. Ele não está apenas criando mais um spin-off, mas sim arquitetando uma verdadeira expansão do universo Predador, mirando longe, com possíveis conexões inclusive com a franquia Alien, que também foi recentemente revitalizada com um novo olhar por Fede Alvarez. O cineasta demonstra segurança não apenas em sua visão estética — que, neste filme, é arrojada e marcante —, mas também na narrativa, apostando em novos formatos e abordagens sem perder a essência daquilo que tornou o Predador uma das criaturas mais icônicas da ficção científica.
A animação, que chegou a ser alvo de rumores sobre o uso de inteligência artificial em algumas cenas, é um espetáculo visual. Mesmo que essas especulações persistam, o resultado final não deixa margem para questionamentos em termos de qualidade. A direção de arte é caprichada, os ambientes de cada época são ricamente detalhados, e as cenas de luta são construídas com um senso de ritmo e violência gráfica que respeitam a brutalidade característica da franquia, ao mesmo tempo em que entregam algo esteticamente moderno e empolgante. É uma das animações mais visualmente ousadas e bem executadas do ano, e deve ser reconhecida como tal, mesmo em um primeiro semestre tímido no gênero.
Predador: Assassino de Assassinos não é perfeito. Seu final poderia ser mais bem desenvolvido, e algumas transições narrativas carecem de maior sutileza. Mas esses deslizes não comprometem o impacto geral do filme, que é refrescante, audacioso e incrivelmente divertido de assistir. Dan Trachtenberg, mais uma vez, prova que entende a alma da franquia, respeita seu legado e, principalmente, sabe como atualizá-la para novos públicos sem descaracterizá-la. Se Prey foi o respiro necessário para o Predador, Assassino de Assassinos é a injeção de criatividade que faltava para projetar o personagem rumo a um universo cinematográfico mais vasto e promissor.
E se o futuro da franquia depender da visão e da mão firme de Trachtenberg, há motivos de sobra para estarmos empolgados com Predador: Badlands — e além. O caçador está mais vivo do que nunca, e desta vez, com novas armas, novos mundos e, principalmente, novas histórias para contar.