The Mastermind
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NerdCall
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2,5
Enviada em 3 de outubro de 2025
Kelly Reichardt é uma cineasta que sempre caminhou na contramão do cinema de fórmulas fáceis. Quem já conhece trabalhos como Wendy and Lucy ou First Cow sabe que sua marca é a contemplação, o silêncio, o olhar demorado para personagens comuns. Em The Mastermind, ela mantém essa proposta, mas a leva a um extremo: constrói um retrato da Nova Inglaterra dos anos 70 e de um homem perdido no meio de transformações sociais, mas o faz de forma tão contida que coloca o espectador diante de uma obra de digestão difícil.

A trama segue JB Mooney (Josh O’Connor), um carpinteiro desempregado que decide se arriscar como ladrão de obras de arte. À primeira vista, o ponto de partida é promissor: um assalto em meio ao pano de fundo da Guerra do Vietnã e do florescimento do movimento feminista nos Estados Unidos. Tudo sugere um filme de tensão, de viradas, talvez até de crítica política. Mas Reichardt, que assina direção, roteiro e montagem, transforma o crime em algo quase secundário. O que lhe interessa não é a ação em si, mas a interioridade de um homem que vaga pela vida sem rumo, incapaz de se conectar plenamente à família, ao trabalho ou até ao próprio desejo de mudança.

O grande problema é que essa escolha narrativa, embora coerente com a trajetória da diretora, acaba perdendo força quando se alonga demais. A ideia de usar o silêncio para retratar o vazio existencial de JB é interessante. Em alguns momentos, realmente sentimos a apatia do personagem, sua incapacidade de reagir ao mundo em movimento. Contudo, Reichardt repete esse recurso à exaustão. São sequências prolongadas de inércia, de olhares parados, de longos minutos em que nada parece acontecer. A cada nova pausa, o impacto diminui, e o que poderia ser um retrato sensível do tédio vira, para o público, um convite à dispersão.

Isso gera uma contradição central no filme: a diretora quer construir um estudo profundo de personagem, mas o faz de maneira que pouco acrescenta ao próprio protagonista. JB é retratado como um homem sem motivações claras, e essa falta de rumo é justamente o tema do filme. O problema é que, ao insistir tanto nessa ausência, Reichardt não dá espaço para outras camadas — e, ao final, o que vemos é apenas um vazio repetido, não explorado. A vida com a esposa, os filhos e os pais aparece de forma pontual, mas sempre de maneira subutilizada, como se fossem peças descartáveis que só entram em cena para reforçar uma sensação de desajuste. A consequência é que, em vez de enxergarmos JB como um personagem complexo, acabamos percebendo-o como um esboço nunca finalizado.

Josh O’Connor, no entanto, consegue segurar a narrativa mesmo com tão pouco material dramático. Depois de brilhar em Rivais, ele volta a mostrar por que é um dos atores mais comentados da sua geração. O’Connor tem uma presença capaz de transmitir fragilidade com pequenos gestos, com olhares dispersos, com uma postura corporal que reflete a apatia do personagem. O desafio aqui é enorme: atuar quase sempre no silêncio, sem grandes falas ou explosões emocionais. Se o filme não naufraga completamente, é em boa parte por causa da entrega do ator.

Outro ponto que merece destaque é o trabalho técnico. A reconstituição dos anos 70 é impressionante, do figurino ao design de produção, passando pela fotografia de Christopher Blauvelt. A paleta de tons frios e laranjas cria uma atmosfera ambígua: por um lado, há calor e vida; por outro, uma sensação de artificialidade, como se o mundo fosse vibrante demais para alguém que não consegue participar dele. É um contraste visual que diz muito sobre JB. A trilha sonora, centrada no jazz, também funciona bem nos primeiros momentos, quebrando o silêncio e trazendo energia. Mas, conforme a narrativa avança, o uso repetitivo da mesma sonoridade acaba previsível, e aquilo que deveria renovar o filme passa a soar mecânico.

E aqui está outra contradição: Reichardt não quer fazer um thriller tradicional, mas sim um estudo intimista. Ao mesmo tempo, ela escolhe como enredo um assalto a obras de arte, algo que naturalmente desperta expectativa de suspense, de risco, de viradas dramáticas. O público, consciente ou não, espera que esse crime seja um motor narrativo. Quando ele não é, a frustração é inevitável. O assalto em si não tem tensão, nem consequências dramáticas de peso. A sensação que fica é de uma oportunidade desperdiçada: a trama oferecia material para algo mais envolvente, mas foi tratada quase como um detalhe.

Esse choque entre expectativa e entrega talvez seja a maior fragilidade de The Mastermind. Kelly Reichardt parecer querer reinventar o gênero, mas ao radicalizar em seu minimalismo acabou criando um distanciamento tão grande que o espectador não encontra pontos de conexão. É um filme que pode ser admirado à distância — pelo rigor estético, pela coerência de visão, pela interpretação sólida de O’Connor —, mas que dificilmente conquista de dentro. Ao final, resta uma sensação de indiferença: nem o crime emociona, nem o personagem nos envolve totalmente.

Ainda assim, não se pode negar que há charme na proposta. O humor discreto de algumas cenas, a fotografia marcante e a ambientação setentista dão ao longa uma identidade singular. Mas é preciso reconhecer que essa identidade vem acompanhada de escolhas que testam a paciência. O espectador não sai transformado, não reflete com intensidade, nem se diverte plenamente. Sente, sobretudo, o peso de uma obra que insiste em seu preciosismo, mas que não encontra o equilíbrio entre contemplação e narrativa.

The Mastermind é, portanto, um filme que reflete fielmente a visão autoral de Reichardt, mas que paga o preço por sua radicalidade. É cinema de resistência, que se recusa a seguir convenções, mas que também se fecha demais em si mesmo. Para alguns, será uma experiência rica, um retrato sensível da inércia de um homem diante de um mundo em mudança. Para muitos outros, será apenas cansativo. E talvez esse seja o maior risco — e também o maior mérito — de uma diretora que nunca quis agradar a todos.
ManguitoRotador
ManguitoRotador

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4,0
Enviada em 31 de outubro de 2025
Eu adorei. Estou numa vibe de desacelerar, reduzir os estímulos e o filme caiu como uma luva. Lento, poucos diálogos mas cheio de mensagens. Um pouco chato por ser um filhinho de papai em crise? Sim. Mas playboy também é gente e gosto de acompanhar seus dramas vez ou outra. Me sinto vendo uma novela de Manoel Carlos.
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