Marty Supreme chega aos cinemas brasileiros como um dos filmes mais marcantes deste início de ano e também como um retorno simbólico de Josh Safdie à direção solo, algo que não acontecia desde The Pleasure of Being Robbed (2008). Depois de anos dividindo a assinatura com o irmão Benny, Josh parece aqui mais livre, mais excessivo e, ao mesmo tempo, mais consciente do impacto que quer causar. O resultado é um filme caótico, energético e frequentemente hipnótico, que encontra em Timothée Chalamet não apenas seu protagonista, mas seu verdadeiro motor narrativo.
Desde o início, o filme deixa claro que não está interessado em uma trajetória clássica de ascensão esportiva. Embora inspirado na figura real de Marty Reisman, o longa usa o tênis de mesa mais como ponto de partida do que como centro da narrativa. O esporte existe, está ali, mas serve muito mais como símbolo de obsessão, ego e sobrevivência dentro de uma Nova York dos anos 1950 sufocante, desigual e oportunista. Marty não quer apenas vencer campeonatos, ele quer provar algo ao mundo e, principalmente, a si mesmo, custe o que custar.
Josh Safdie constrói essa jornada apostando em um ritmo frenético que já se tornou sua marca registrada. A narrativa se desenvolve como uma sequência de decisões impulsivas, acidentes e consequências que nunca se resolvem completamente. As cenas se atropelam, os conflitos se acumulam e o espectador é constantemente empurrado para dentro do caos do protagonista. Não há muito espaço para respiro, e isso não é um defeito acidental: é uma escolha clara de direção. Safdie quer que o público se sinta preso à mente de Marty, compartilhando sua ansiedade, sua ambição e sua incapacidade de parar.
Essa sensação é reforçada por uma câmera que invade os personagens, se aproxima demais, observa expressões, suor, olhares e pequenos gestos. Em vários momentos, o filme parece menos interessado no que está acontecendo ao redor e mais focado no rosto de Chalamet, como se tudo orbitasse sua presença. A fotografia ajuda a criar esse ambiente claustrofóbico, com enquadramentos fechados e uma Nova York retratada longe do glamour, mais próxima dos becos, dos golpes e da precarização do trabalho. É uma cidade viva, mas hostil, onde sobreviver já é uma forma de vitória.
Ao mesmo tempo, é impossível ignorar que Marty Supreme segue uma cartilha que a Academia costuma adorar. Temos um personagem americano maior que a vida, uma história de obsessão e queda, um ritmo intenso e um ator em plena ascensão entregando uma performance transformadora. O filme flerta claramente com o “oscar bait”, e isso não chega a ser um problema em si, mas fica evidente que essa ambição molda algumas escolhas. Em certos momentos, a sucessão constante de cenas caóticas gera uma sensação de inchaço narrativo, especialmente considerando a longa duração. Há instantes em que o espectador se pergunta até onde esse looping de excessos vai levar e se ele realmente precisa se estender tanto.
Dentro desse caos, o filme ainda tenta inserir elementos históricos e políticos, como o cenário pós-Segunda Guerra Mundial e a relação do tênis de mesa com o Japão. Essas ideias são interessantes e ajudam a contextualizar o crescimento do esporte, mas funcionam mais como pano de fundo do que como algo plenamente desenvolvido. Da mesma forma, as partidas de tênis de mesa acabam sendo menos impactantes do que poderiam. Existe uma certa pressa em algumas delas, e o uso de efeitos visuais para sustentar o que o roteiro exige acaba tirando um pouco da força e da credibilidade das cenas, e sim, estou falando da bolinha do tênis de mesa no filme. A grande partida final, por outro lado, consegue gerar tensão e funciona como fechamento emocional da trajetória.
Se existem tropeços ao longo do caminho, eles são constantemente apagados pela atuação de Timothée Chalamet. Aqui, ele entrega, sem exagero, a performance mais impressionante de sua carreira. Chalamet não apenas interpreta Marty Mauser, ele se transforma nele. Seus trejeitos, sua fala, sua postura e até sua energia parecem pensados para construir uma persona maior que o filme. É uma atuação magnética, daquelas que seguram a atenção mesmo quando a narrativa ameaça se perder. Quando o filme falha, é Chalamet quem o mantém de pé.
Os coadjuvantes cumprem bem seus papéis, com destaque para Odessa A’zion, que consegue acompanhar a intensidade do protagonista e dividir com ele a loucura que o filme propõe. Ainda assim, fica claro que Marty Supreme é, acima de tudo, um palco para Chalamet brilhar e Josh Safdie sabe exatamente disso, usando o ator como centro gravitacional de toda a experiência.
Visualmente, o filme também impressiona. A reconstrução de época é cuidadosa, o figurino ajuda a contar história e a trilha sonora mistura músicas da época com elementos modernos, criando uma sensação estranha de grandiosidade e descontrole. Tudo contribui para esse clima de ascensão e colapso constante, onde nada parece estável por muito tempo.
No fim das contas, Marty Supreme é um filme grande, barulhento e ambicioso. Bebe da fonte de obras como O Lobo de Wall Street, mas consegue encontrar sua própria identidade dentro do caos que propõe. Não é perfeito, nem equilibrado, e em alguns momentos se perde em sua própria vontade de ser excessivo. Ainda assim, é difícil negar seu impacto. Josh Safdie prova que, sozinho, continua sendo um cineasta interessante, e Timothée Chalamet se firma de vez como um dos atores mais relevantes de sua geração. Com todos os seus excessos e falhas, é um dos filmes mais fortes da temporada, daqueles que incomodam, cansam, fascinam e permanecem na cabeça depois que os créditos sobem.