Filme "Oeste Outra Vez” (Brasil 2024): a mulher escolhe… os homens se matam…
Oeste Outra Vez se passa num sertão ressecado pela ausência do feminino e pela banalização da morte. Capangas pedem “licença” educadamente antes de puxar o gatilho. Alguns até pedem desculpas. É a banalidade do mal com sotaque do interior: cordial, seca, caipira. Matar não é um dilema ético. É uma grande oportunidade de profissão a conquistar para aqueles que vivem na carência de oportunidades do interior goiano. Cumpre-se uma ordem com responsabilidade, como quem tem o negócio contratado e precisa zelar pela valiosa reputação e fama de um bom pistoleiro.
Nesse universo de homens endurecidos, a presença feminina é marcada pela falta — ela aparece uma única vez, mas sua ausência funda toda a tragédia. A mulher desce do carro e vai embora. É muito feminina e anda como mulher. Não lembro se chega a ser nomeada, mas é ela que estrutura todo o drama. Ela já escolheu — e é justamente por isso que existe a briga. Não é uma mulher indecisa. Não é uma mulher sem rumo. Ela simplesmente se retirou da briga, não fica pra assistir, porque está tranquila na sua decisão.
Mas isso é insuportável para alguns homens. Eles não conseguem aceitar que não foram escolhidos. E então, nesse filme, ainda não escolhem matar a mulher, mas decidem matar o escolhido. A mulher continua viva, mas seu desejo — ou melhor, o objeto do seu desejo — deve ser assassinado.
Esse gesto revela muito da estrutura psíquica em jogo: a mulher não é vista como sujeito que deseja, mas como propriedade roubada. O outro homem é acusado de ter “roubado” a mulher, mas o pistoleiro questiona: como se pode roubar uma mulher? Ao mesmo tempo, só existe um jeito de “reaver” a mulher: matando o rival. Porque ela não escolheu, ela foi “seduzida”. É a fantasia masculina e alucinação negativa da capacidade de escolha feminina que sustenta o crime.
Ao matar o escolhido, mata-se a escolha. Já que não se quer matar a mulher — e o diretor, inclusive, opta por não narrar um feminicídio —, mata-se o objeto da escolha. O homem não suporta o desejo da mulher por outro. Então é mais fácil matar o rival do que aceitar que perdeu. Essa é uma forma de preservar a própria honra diante dos outros homens. Porque o orgulho está ferido, e os outros estão vendo. Assim como no feminicídio, mata-se para se afirmar, para reagir, para restaurar uma imagem.
A mulher não é reconhecida como um sujeito desejante, mas um objeto de disputa. Ela não escolhe com quem quer ficar — e nem pode escolher ficar sozinha. Só lhe resta ficar com quem a toma ou com quem já a possui. A mulher não se basta: ela precisa de um homem pra existir. Mas, no fundo, é o homem que não se basta. É ele que não consegue suportar a ideia de viver sem aquela mulher. A trama revela, assim, uma projeção do sentimento masculino de incompletude.
Se o homem escolhe matar o rival, é porque ainda alimenta a fantasia de que a mulher não escolheu. Ela teria sido seduzida, enganada, roubada — nunca desejante. Nesse gesto, a mulher não é reconhecida como sujeito, mas como posse extraviada. O homicídio, nesse caso, é anterior ao feminicídio: ele ainda tenta preservar a ilusão de que o desejo feminino não existe. Já o feminicídio surge quando essa ilusão entra em colapso — quando cai a ficha: ela não quer mais, foi embora, não volta. Aí, ela deixa de ser objeto disputado e vira sujeito da escolha. E é exatamente por isso que deve ser eliminada: porque ousou desejar por conta própria. O feminicídio, então, é a reação violenta à autonomia feminina — quando o homem já não pode mais negar que perdeu, nem suportar que ela tenha se libertado. Mata-se o rival porque se sustenta a fantasia de que a mulher foi levada. Mata-se a mulher, porque já não havia como negar que foi ela quem escolheu partir. O feminicida, por mais brutal que seja, está um passo mais próximo de reconhecer a alteridade da mulher — ainda que essa alteridade seja insuportavel para ele.
A lógica infantil do Édipo também se faz presente: a criança que acha que só existe um primeiro lugar. E que esse lugar pertence ao pai. Então, para ocupar esse lugar, é preciso matar o pai. O drama só se dissolve quando se percebe que há outros lugares possíveis, outras mulheres além da mãe. Mas para alguns, essa transição nunca acontece. O objeto da pulsão se fixa, como dizia Freud, e o sujeito se enreda num desejo infantil: “só posso amar aquela”. O rival vira um obstáculo insuportável. E aí o amor não é mais caminho: virou um campo minado.
A estrutura patriarcal reforça isso. No patriarcado, um homem tem uma mulher. Ou várias. Mas o inverso — uma mulher ter vários homens, ou simplesmente escolher com quem quer ficar — é um escândalo. Numa sociedade matriarcal, essa briga nem aconteceria. Porque a mulher poderia escolher, poderia circular, poderia ir e vir. Mas aqui, ela é vista como posse. Como território disputado.
No fim, Oeste Outra Vez mostra que amar é perigoso. Mas matar... matar é um serviço necessário. Um jeito de restaurar a ordem das coisas, como se o amor feminino tivesse bagunçado tudo. O filme ri disso, mas o riso é seco. Porque o que está em jogo é uma tragédia real: a dificuldade de reconhecer e aceitar a liberdade do outro. Especialmente quando esse outro é uma mulher que já escolheu — e que não volta atrás. Enquanto isso, os homens são retratados em cena apenas convivendo com outros homens.
Aécio Fernandes de Carvalho, psicólogo formado pelo IP-USP