Minha crítica não é à falta de final, pois li o esclarecimento do diretor e faz sentido. Minha crítica é a todo o resto. Há muitos méritos na história: seu entrelaçamento, a capacidade de criar suspense e mistério (mesmo com a repetição da mesma coisa várias vezes), a originalidade do seu olhar descontínuo, etc. Os primeiros 40 minutos conseguem nos impedir de sequer desviar os olhos. Porém, o filme se propõe a fazer muita coisa, e não consegue fazer nada.
Uma quantidade massiva de personagens é apresentada como se fossem ser desenvolvidos, mas não são. Para citar só quatro: Todos os militares do telão foram explorados, mas faltou um, o que está dentro de um carro - provavelmente sua trama foi cortada da versão final. Há um sujeito no começo do filme, na Sala de Crise, que age de forma suspeita, é visto com olhar torto pelo oficial negro e parece que será importantíssimo para a história, mas então ele foge e nunca mais o vemos. Há uma personagem, também no início do filme, da FEMA, que parecia que ia ser uma protagonista; ela age de forma totalmente inverossímil em relação ao comportamento do tipo de profissional que representa, some da história e no fim fica claro que só tinha sido colocada para atender cota. Há uma jornalista da CNN que aparece, ocupa um longo tempo de tela, parece importantíssima e então simplesmente desaparece, sem ter contribuído com absolutamente nada para a história - ficamos sem sequer entender quem era ela. Aliás, quem é o senador que "se levantou durante a sessão e saiu", sobre quem ouvimos 2 vezes ao longo do filme? O que tem de tão fora do comum em um senador se levantar na sessão e sair? Certamente o objetivo era apresentá-lo e desenvolver a trama, mas ficou no ar, como todo o resto.
O filme inteiro está cheio de conveniências. Só havia 1 míssil sendo lançado;
após o primeiro antimíssil não dar certo, desistem, pois só havia 50 no arsenal, e iam precisar caso lançassem mais. Isso é um absurdo completo. A própria ideia de trocar um CERTO tão grave (a vida de 10 milhões de pessoas iria acabar nos próximos minutos) pelo DUVIDOSO de que TALVEZ o inimigo pudesse lançar mais NO MÍNIMO 50 MÍSSEIS, é incompreensível. Se o inimigo lançar mais, não teria motivo NENHUM para esperar o primeiro impacto - seria mais inteligente lançar logo vários ao mesmo tempo, pois isso tornaria mais difícil interceptá-los. Há inclusive um momento em que a Rússia e China já tinham entrado em acordo tácito com o vice-conselheiro de Segurança Nacional, e nesse exato momento se poderia ter decidido "arriscar" (?!) a interceptação com bastante segurança... Ou seja, o filme inteiro se baseia em uma mentira que simplesmente não convence: que não interceptam o míssil e não podem usar 1 único antimíssil, porque nesse caso o inimigo iria lançar mais, e aquele 1 ia fazer falta... Aliás, se o mapa de lançamentos nucleares do presidente, como vemos no final do filme, era destruir as estações de lançamento dos inimigos, e se ele ia fazer isso de qualquer forma, a única diferença lançando um antimíssil é que, além de impedir lançamentos futuros, ainda salvaria todos e tudo estaria resolvido.
Mais grave ainda é OUTRO absurdo completo que o filme usa para tentar criar tensão emocional: a ideia de que os envolvidos e seus familiares estivessem em risco de morte e tinham que fugir. Li na entrevista do diretor que ele queria falar da dificuldade de líderes tomarem decisões tão árduas e complexas enquanto, ao mesmo tempo, têm que fugir pelas próprias vidas. Pois bem: mas por que eles têm que fugir?! No filme inteiro, há essa constante tensão sobre a fuga de Washington. E nunca se entende o porquê, já que Chicago está a km de Washington! Por exemplo: por que o guarda diz para a jornalista da CNN "sair enquanto pode", se estão a 12h de distância do local de impacto?
Para onde, meu Deus, o avião do presidente está indo, se Washington fica no extremo leste dos EUA e, portanto, seria uma das cidades mais seguras possíveis contra eventuais novos lançamentos da Ásia?...
Por que o vice-conselheiro de Segurança Nacional está chorando pela esposa grávida, ou o oficial negro da Sala de Crise está chorando pela esposa, se obviamente nada vai acontecer com nenhuma delas? Há um momento absurdo em que a Rebecca Ferguson liga para o marido e o manda dirigir para Oeste sem parar, e começa a chorar em desespero! Vimos no começo do filme que ela mora em Washington com a família - por que o filme quer nos convencer de que o marido e o filho vão morrer?! E por que ele dirigiria para Oeste, indo mais para perto de Chicago?!
Na verdade, por que é que o filme escolheu Chicago, e não Washington?! Todos os propósitos do filme seriam muito melhor atendidos se a ameaça fosse contra Washington. Aliás, não haveria motivo nenhum para um país que só pretende lançar um único míssil nuclear, decidir lançá-lo em uma cidade que não é nem a maior dos EUA, muito menos um grande ponto estratégico ou político.
O que a esposa do presidente está fazendo no Quênia, e o que o filme quer passar com isso? E o filme quer nos convencer de que um presidente dos EUA gastaria os últimos 2 minutos, antes do impacto de uma bomba nuclear, pedindo a opinião da esposa? E por que focam tanto as expressões do assistente de lançamentos do presidente, como se ele fosse um vilão, enquanto ainda estava tudo normal? Por que o Serviço Secreto escolta o presidente tão bruscamente do ginásio, se não havia nenhum risco à vida dele ali?
Filme repleto de conveniências, nada faz sentido com nada, está faltando tudo, tem buracos em todo lugar e deixa o espectador com raiva e até pena. E, é claro, não tem final. Um filme que só pode ser entendido após a explicação do diretor, não pode ser um bom filme.