É curioso pensar que a Disney tenha decidido apostar em Os Roses: Até que a Morte os Separe para um lançamento amplo nos cinemas. Em um momento em que os grandes estúdios buscam reduzir riscos e priorizam franquias ou filmes de apelo garantido, produções com temáticas mais intimistas e dramáticas tendem a ser relegadas diretamente ao streaming. O que faz esse projeto diferente, e o que sustenta sua força de marketing, é justamente o encontro inédito de dois grandes nomes: Olivia Colman e Benedict Cumberbatch. Esse encontro não só atrai olhares pela raridade de vermos atores desse calibre contracenando pela primeira vez, como também se prova a espinha dorsal do longa, já que ambos são responsáveis por manter o interesse do público mesmo quando o roteiro e a narrativa perdem consistência.
O filme acompanha a trajetória conjugal de Theo (Cumberbatch) e Ivy (Colman), desde o início aparentemente equilibrado do relacionamento até a lenta degradação do casamento. No começo, cada um ocupa um papel tradicional: Theo como o provedor e Ivy como a cuidadora da família. Essa dinâmica muda radicalmente após um acidente que arruína a carreira de Theo, deixando-o sem perspectiva de emprego, enquanto Ivy transforma um antigo hobby em uma profissão de sucesso, tornando-se uma renomada chef de cozinha. Esse ponto de virada abre espaço para discussões interessantes: a masculinidade ferida de Theo diante da inversão de papéis, a ascensão profissional de Ivy em detrimento da vida familiar, e as tensões inevitáveis que surgem quando sonhos individuais passam a colidir com responsabilidades coletivas.
Em teoria, esse é o tipo de material rico que poderia render um estudo poderoso sobre casamento, divórcio e o desgaste de uma relação ao longo dos anos. Mas a execução do filme escolhe um caminho menos naturalista. Em vez de mostrar o desgaste cotidiano, com pequenos gestos e silêncios, a narrativa aposta em saltos temporais abruptos, que concentram os conflitos em eventos pontuais: uma viagem, um jantar, um encontro entre amigos. Esse recurso acaba diluindo a sensação de ruína gradual, transformando o retrato do casamento em blocos dramáticos intercalados por diálogos de briga. O resultado é que a ideia central do filme – o desgaste inevitável e silencioso de uma relação – soa mais declarada do que vivida.
Ao mesmo tempo, Os Roses não se limita apenas ao drama. O roteiro de Tony McNamara injeta humor ácido, típico do cinema britânico, em diálogos rápidos e situações bizarras. Essa mistura, em certos momentos, funciona: a tensão das brigas se transforma em situações quase tragicômicas, revelando como o riso pode emergir até dos momentos mais dolorosos. Porém, o excesso de oscilação entre humor e melodrama quebra a fluidez. A cada momento em que a história parece se firmar em um tom mais sério, uma piada deslocada surge; e quando a comédia parece ganhar fôlego, logo surge um peso dramático que interrompe o ritmo. O filme pede que o espectador esteja constantemente ajustando sua expectativa de tom, o que pode gerar tanto fascínio quanto exaustão.
E é aqui que mora uma contradição: Os Roses tenta ser ao mesmo tempo uma análise profunda sobre casamento e uma comédia de humor ácido. O problema não está nessa ambição, mas na falta de coesão para equilibrar esses dois lados. Em alguns trechos, a narrativa é séria demais para sustentar a leveza; em outros, é leve demais para carregar o peso do drama. O resultado é um filme que transita por caminhos ricos, mas sem chegar a uma síntese plena.
Ainda assim, se há algo que impede que o longa despenque de vez, são Olivia Colman e Benedict Cumberbatch. A química entre os dois é evidente, e cada um, à sua maneira, injeta camadas em personagens que poderiam soar caricatos. Colman, como de costume, transita com naturalidade entre o humor e o drama, trazendo vulnerabilidade a Ivy mesmo quando a personagem parece se afastar da família em nome do sucesso profissional. Já Cumberbatch surpreende por explorar um lado cômico pouco visto em sua carreira, sem perder o peso dramático que seu papel exige. Juntos, eles criam momentos de intensidade emocional que fazem o público se manter conectado à história, mesmo quando o roteiro não ajuda.
Em contrapartida, o elenco de apoio é mal aproveitado. Nomes como Andy Samberg, Kate McKinnon, Allison Janney e Ncuti Gatwa aparecem em papéis que pouco acrescentam à trama. Suas participações parecem pensadas mais como chamariz publicitário do que como elementos realmente integrados à narrativa. Isso reforça ainda mais a percepção de que o filme se apoia quase exclusivamente no talento da dupla principal.
Um aspecto interessante, contudo, está na fotografia, que dialoga de forma sutil com o estado emocional dos personagens. No início, as cores são mais quentes e vivas, acompanhando a fase promissora do casal. À medida que os anos passam e o relacionamento se deteriora, as paletas tornam-se frias e os espaços mais fechados, traduzindo visualmente a sensação de confinamento e distância. É um detalhe que, mesmo discreto, acrescenta força à experiência.
No fim das contas, Os Roses: Até que a Morte os Separe é um filme que tem em mãos ideias fortes e uma dupla de protagonistas brilhante, mas tropeça na execução. Ao tentar equilibrar humor ácido e melodrama conjugal, a narrativa se perde em oscilações de tom e saltos temporais que enfraquecem a imersão do público. O resultado é uma obra que parece sempre à beira de algo maior, mas que se encerra de forma anticlimática, sem a contundência emocional que prometia.
É um filme que poderia ter sido devastador ou hilário, mas acaba ficando no meio-termo. Um estudo superficial sobre casamento e divórcio, sustentado pela química de Colman e Cumberbatch, mas incapaz de atingir o impacto que seus temas pediam. O espectador sai do cinema dividido: com a memória de grandes atuações, mas também com a sensação de que o potencial humano e narrativo do projeto foi desperdiçado.