Muito se fala sobre a fabulosa atuação de Anthony Hopkins em O Silêncio dos Inocentes. No entanto, também vale relembrar a genial interpretação de Ted Levine como Buffalo Bill, que inclusive se deu ao luxo de improvisar uma cena memorável.
Nunca é demais repetir o quanto O Silêncio dos Inocentes é um dos maiores filmes e thrillers do cinema norte-americano. Um gênero que ele ajudou enormemente a redefinir, inspirando posteriormente outros grandes marcos da sétima arte, como Se7en - Os Sete Crimes Capitais.
Além de ostentar a raríssima honra de estar no seleto grupo dos três únicos filmes a vencerem as cinco principais categorias do Oscar, a obra-prima de Jonathan Demme permitiu que Anthony Hopkins entregasse uma atuação aterrorizante no papel do Dr. Hannibal Lecter. Uma performance premiada com a estatueta que, inclusive, conquistou o primeiro lugar na lista do American Film Institute dos maiores vilões da história do cinema, mesmo aparecendo por apenas 16 minutos em cena.
Em meio a um elenco impecável, que inclui obviamente Jodie Foster e Scott Glenn, vale destacar o brilhantismo do sensacional Ted Levine, que interpreta com perfeição o serial killer Buffalo Bill, caçado pelo FBI. Um personagem não menos assustador do que Lecter e que também se tornou emblemático: várias de suas falas foram referenciadas, homenageadas e parodiadas infinitas vezes em dezenas de séries e filmes ao longo dos anos.
Ted Levine sobre Buffalo Bill em O Silêncio dos Inocentes: "Esse personagem me deixou louco"
Embora Ted Levine não tivesse ressalvas sobre a personalidade de Jame Gumb/Buffalo Bill tal como descrita no roteiro, o ator sentia que ela não fazia total justiça ao personagem se comparada ao livro de Thomas Harris. Foi justamente na obra literária que Levine buscou inspiração para a cena icônica perto do final do filme, na qual ele dança nu em frente ao espelho, uma sequência totalmente improvisada.
Envolto em um xale e usando o couro cabeludo de uma de suas vítimas anteriores, ele dança ao som de Goodbye Horses, de Q Lazzarus, até que uma ideia lhe vem à cabeça. Ele recua erguendo os braços em uma postura que remete a asas, ampliando o simbolismo da mariposa presente ao longo de todo o longa-metragem.
Como parte de sua pesquisa de preparação, Levine foi até a sede do FBI em Quantico para assistir a gravações de um serial killer real que também mantinha mulheres em cativeiro no porão, deliciando-se com o poder que exercia sobre suas vítimas antes de assassinar algumas delas. Como revelou à revista Rolling Stone, o ator também frequentou bares voltados ao público travesti e performático, conversando com frequentadores e artistas para compreender melhor a mente do personagem.
Em uma entrevista concedida ao Chicago Reader em 1991 (via Looper), Ted Levine relatou sua experiência na composição do papel:
"Foi difícil. Nunca mais interpretarei um personagem como esse. Eu teria adorado apenas atuar com base no que estava no roteiro, sem me preocupar com o livro; teria sido muito mais fácil trabalhar assim. Há tantas imagens no livro que não aparecem no filme. Por um lado, elas ajudam, mas por outro, você pode acabar exagerando, que foi o que acho que fiz. Esse personagem me deixou louco."
Mas ele pode ficar tranquilo: 35 anos depois, sua atuação aterrorizante e brilhante continua sendo absolutamente estarrecedora.