"Eu não posso ser ele": Há 13 anos, Liam Neeson perdeu a chance de ganhar o Oscar de Melhor Ator

Por quase 10 anos, Liam Neeson se preparou para viver Abraham Lincoln sob a direção de Steven Spielberg. No entanto, a poucos meses das filmagens, o ator tomou uma decisão radical que abriu caminho para Daniel Day-Lewis... e para um Oscar.

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Por Giovanni Rodrigues

Antes de Daniel Day-Lewis entregar uma das atuações mais aclamadas de sua carreira em Lincoln, outro ator estava cotado para dar vida ao famoso presidente americano. Por quase uma década, Liam Neeson se preparou para assumir esse papel de prestígio antes de tomar uma decisão inesperada: abandonar o projeto.

Quando Steven Spielberg planejou levar a vida de Abraham Lincoln para os cinemas, Neeson surgiu como a escolha natural. Ambos já haviam colaborado com sucesso em A Lista de Schindler, filme que marcou profundamente a carreira do ator irlandês. Atraído pela importância histórica da figura, Neeson mergulhou por anos em uma extensa pesquisa sobre o 16º presidente dos EUA, estudando livros, arquivos e relatos.

A mudança de rumo no roteiro

Contudo, uma reviravolta no projeto mudou sua percepção sobre o papel. Com a chegada do roteirista Tony Kushner, o foco do filme mudou drasticamente. Inicialmente concebido como uma grande saga que cobriria toda a vida de Lincoln, o roteiro passou a se concentrar exclusivamente nos meses finais de sua presidência e na sua batalha para aprovar a 13ª Emenda.

Essa nova abordagem, inspirada no livro Team of Rivals (de Doris Kearns Goodwin), convenceu Spielberg a narrar um recorte histórico específico em vez de uma biografia completa.

O dia em que Neeson percebeu que não era o homem certo

Foi durante uma leitura coletiva do roteiro que Liam Neeson percebeu que algo não funcionava mais. Em entrevista à GQ em 2014 (reproduzida pelo Collider), o ator relembrou o momento:

"Começamos a ler, houve uma introdução e então vi Lincoln e tive que começar a falar. Foi aí que tive um estalo. Pensei: 'Eu não deveria estar aqui. Acabou. Meu prazo de validade para isso passou. Não quero interpretar este Lincoln. Não posso ser ele'."

O ator explicou ter sentido um distanciamento imediato entre si e a nova versão do personagem. Apesar do incentivo das pessoas ao redor, ele não conseguia mais se projetar no papel e decidiu conversar diretamente com o diretor.

"Eu li muito mal, sob qualquer ponto de vista. Mas, depois, algumas pessoas vieram até mim e disseram: 'Nossa, você nasceu para ser o Lincoln'. Fiquei sem graça. Então o Steven veio e eu disse: 'Steven, você precisa escalar outro ator agora'. Ele me perguntou: 'Do que você está falando?'. E eu respondi: 'Estou falando sério. Você precisa achar outro ator'. Fui para casa, liguei para [Doris Kearns Goodwin] conversar um pouco e depois liguei para o Steven: 'Steven, isso não é para mim. Não sei explicar. Acabou'. E ele entendeu. Disse: 'Tudo bem'. E foi isso."

Spielberg aceitou a escolha e o projeto seguiu em frente sem ele.

Um papel sob medida para Daniel Day-Lewis

A saída de Liam Neeson abriu espaço para Daniel Day-Lewis. Em 2012, o ator britânico entregou uma interpretação unanimemente aclamada que lhe rendeu mais um Oscar e entrou imediatamente para a história do cinema. Com o tempo, o próprio Neeson reconheceu que seu sucessor era a escolha ideal:

"É o p**** do Abraham Lincoln. Está perfeito", declarou Neeson, emocionado ao falar sobre Day-Lewis.

Conhecido por seu método extremo de imersão, o astro de Gangues de Nova York dedicou anos de preparação para construir essa atuação emblemática.

Da história para os filmes de ação

O perfil físico de Neeson — com sua imponência, autoridade natural e 1,93m de altura (semelhante à silhueta esguia do presidente) — indicava que ele seguiria a trilha de grandes figuras históricas, como já havia feito em Rob Roy e Michael Collins.

No entanto, poucos anos após deixar Lincoln, o ator reinventou sua carreira em Hollywood, tornando-se um dos rostos mais importantes do cinema de ação contemporâneo. Sob a direção de cineastas como Jaume Collet-Serra, ele mudou o foco para personagens físicos e motivados por vingança, alcançando um público totalmente novo. Recentemente, ele chegou a aceitar o papel principal de Frank Drebin Jr. no remake da comédia Corra que a Polícia Vem Aí!.

O sonho de viver Lincoln não foi totalmente abandonado

Apesar de ter deixado o filme de Spielberg, Neeson mantém o fascínio por Abraham Lincoln e não descarta interpretá-lo no futuro.

"Eu ainda adoraria contar a história de Lincoln. Acho que o filme [de Spielberg] mostra um recorte, sim, mas eu ainda gostaria de fazer uma cinebiografia nos moldes antigos."

Para o ator, ainda existe espaço para uma versão mais clássica e abrangente de toda a trajetória do presidente americano — exatamente a visão que o atraiu ao projeto inicialmente.

Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).
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