"Uma total falta de respeito": Tolkien odiou a primeira adaptação de O Senhor dos Anéis
Maria Clara decidiu estudar audiovisual para juntar o melhor de todos os mundos. Apaixonada pelo cinema independente e também pelos famosos filmes da sessão da tarde, não dispensa indicações e nem julga um filme pela sinopse.

Antes de Peter Jackson, uma versão anterior de O Senhor dos Anéis já havia provocado a fúria de Tolkien que, como de costume, não poupou palavras.

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Muito antes de a Terra Média conquistar o cinema e virar fenômeno mundial, uma primeira investida nas telas já havia despertado a ira do seu criador. J.R.R. Tolkien, conhecido por seu zelo extremo e apego visceral à própria obra, nunca escondeu a profunda rejeição que sentiu pelo primeiro projeto cinematográfico baseado em O Senhor dos Anéis.

Hoje, a trilogia de Peter Jackson é aclamada como uma grande adaptação da saga — mesmo com todas as liberdades que tomou em relação aos livros. Conquistou o público, levou 11 Oscars e se firmou como um dos maiores clássicos da fantasia no cinema. Mas será que o autor, falecido em 1973, aprovaria essa versão? E a série O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder? Ou o filme de animação A Guerra dos Rohirrim? Impossível saber. Uma coisa, porém, é certa: a opinião de Tolkien sobre a primeira adaptação, assinada por Ralph Bakshi, está mais do que registrada.

Um projeto de adaptação que virou fiasco

Lá no finzinho dos anos 1950, começou a ganhar forma um projeto de animação para os livros. O agente Forrest J. Ackerman conseguiu a aprovação de Tolkien para levar seu universo às telas, e o roteiro ficou a cargo de Morton Grady Zimmerman. A ambição era enorme: nada menos que condensar as aventuras de Frodo e a Sociedade do Anel em um filme de cerca de três horas. Só que, ao ler o roteiro, Tolkien se desencantou de vez.

Embora estivesse, a princípio, aberto à ideia de ver sua obra adaptada, sua reação ao tratamento proposto foi imediata e arrasadora. Em cartas reunidas no livro As Cartas de J.R.R. Tolkien, o escritor disparou uma crítica afiadíssima, afirmando que sua história havia sido "simplesmente assassinada".

A ira de Tolkien

O veredito sobre o roteirista não foi menos contundente. “Diria que Zimmerman é incapaz de extrair ou adaptar as 'palavras faladas' do livro. Ele é precipitado, insensível e impertinente”, escreveu, antes de ir além em outra correspondência: “Parece-me evidente que ele apenas folheou 'O Senhor dos Anéis' e depois montou [o roteiro] com base em lembranças vagas e confusas, consultando muito pouco o original. (...) Estou muito insatisfeito com a extrema estupidez e incompetência [de Zimmerman], bem como com sua total falta de respeito pela obra original.

Longe de se limitar a palavras duras, Tolkien fez uma análise minuciosa do roteiro, comentando-o página por página numa carta longa e detalhada. Ciente do peso de suas críticas, ainda assim tratou de justificar sua reação:

Se [Zimmerman] e/ou outros [lerem meu comentário], podem se sentir incomodados ou ofendidos com o tom das minhas observações. Se for o caso, lamento (embora não me surpreenda). Mas peço que façam um esforço de imaginação para entender o desconforto (e às vezes o ressentimento) de um autor que percebe — ao ler — que sua obra foi tratada com descaso, de maneira irrefletida e sem o menor sinal de apreço pelo que ela realmente é.

As críticas miravam uma infinidade de detalhes, alguns bem inesperados. Tolkien questionava desde o visual dos fogos de artifício de Gandalf até as alterações estéticas nos Orcs, que apareciam adornados com bicos e penas. Reclamou do Balrog falante e risonho, de Lothlórien transformada em um cenário de conto de fadas e dos Elfos reduzidos a criaturinhas quase fadas. Em sua visão, o desfecho da história se perdia em "uma confusão que, no fim das contas, beirava a loucura".

Esse perfeccionismo, às vezes tachado de exagerado, traduz, na verdade, a relação visceral que Tolkien mantinha com seu próprio universo. E, embora algumas de suas críticas soem quase pitorescas, é curioso notar que certos elementos que ele tanto condenou na época acabaram aparecendo, de um jeito ou de outro, na versão de Peter Jackson. Só reforça o eterno debate: será que o autor teria gostado da adaptação que hoje encanta milhões de espectadores pelo mundo? Pergunta que, certamente, nunca terá resposta.

Os filmes de O Senhor dos Anéis estão disponíveis para (re)ver na HBO Max e no Prime Video.

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