Críticas AdoroCinema
3,5
Bom
Supergirl

Milly Alcock é uma boa heroína em um universo que nos diverte, mas que poderia recebê-la com mais confiança.

por Aline Pereira

Parece que John Wick encontrou uma amiga no quesito quem-vai-mais-longe-pelo-pet. Em uma aventura motivada pela salvação de seu super cachorrinho de estimação (uma razão que poucas pessoas teriam coragem de questionar), Supergirl também convida o público para um passeio intergaláctico que, ao longo de um caminho por vezes atrapalhado, chega ao fim cumprindo uma boa missão: diverte e traz uma protagonista carismática – como (quase) todo super-herói blockbuster precisa ter.

O filme dirigido por Craig Gillespie (Cruella, Eu, Tonya) começa em um ponto algo, com um bom momento em que encontramos Kara Zor-El (Milly Alcock), a prima do Superman, comemorando o aniversário de 23 anos. No trecho, o problema que ela enfrenta com seu superpoder é o mais humano possível: a resistência avançada de seu corpo não a permite se embriagar. É nesse tom que a atriz de House of the Dragon constrói a personagem: temos uma heroína às voltas com a própria identidade e sem um propósito que a faça se movimentar. Até que uma garotinha surge em cena.

Ruthye (Eve Ridley) está em busca de vingança após uma tragédia que se abateu sobre sua família e encontra em Kara a última esperança para ajudá-la no caminho até o vilão do longa, Krem (Matthias Schoenaerts). O contraste entre as duas define uma dinâmica mentor-aprendiz que não é necessariamente original – explorando a ingenuidade e obstinação de uma versus o cinismo da outra, mas encontra o caminho para entreter o público.

Temos, assim, uma aventura à la Guardiões da Galáxia e, não por coincidência, a fase cinematográfica da DC em que o filme está inserido tem a liderança criativa de James Gunn. O filme não é dirigido por ele, mas saí com uma forte sensação de que a mão invisível do cineasta agiu, de alguma maneira, nas escolhas, especialmente, estilísticas.

Supergirl faz heroína brilhar, mas não confia tanto assim nela

A história de origem da heroína está entregue no filme (com flashbacks bem concisos, é verdade), mas faltou alguma força para explorar os superpoderes e a potência que tornam Kara uma figura importante dentro de seu universo e que a solidifiquem como a personagem que ela deve vir a ser – uma vez que sabemos, por exemplo, que ela retornará na próxima aventura do Superman.

Nem todo filme de super-herói precisa ser sobre salvar o mundo inteiro e é interessante que a trama seja mais restrita, mas também corre o risco de torná-la isolada e “pequena”, não em termos de importância, mas de ousadia.

As aparições de David Corenswet e Jason Momoa como Superman e Lobo, respectivamente, parecem ser muito mais uma tentativa de garantir um “porto-seguro” para o filme, com atores e personagens já conhecidos ou aguardados pelo público, do que um chamado criativo. Nem um, nem outro interferem diretamente na jornada de Kara ou a apoiam como protagonista: Superman está lá porque tinha que estar para estabelecer a conexão e o Lobo… Bem, eu também não aguentava mais os comentários sobre o quanto Momoa é parecido com o personagem dos quadrinhos.

E ele é mesmo! O ex-Aquaman é a cara do “anti-herói” (será que é a melhor definição?), tem tudo para se tornar um destaque nesta fase da DC e a vontade é de vê-lo ainda mais em uma aventura solo. A questão central aqui é o encaixe dele na história.

Falta, talvez, uma elaboração mais detalhada no roteiro que integre a trama dos dois. Existe uma química que parece natural não só entre Kara e Lobo, mas entre a brutalidade dele e a sensibilidade de Ruthye. Seria interessante ver os personagens trabalhando juntos em prol da missão principal da aventura.

Kara é uma personagem de seu tempo e isso dá força a Supergirl

Um dos meus principais receios antes de assistir ao filme era que a protagonista precisasse do Superman – ou de qualquer outro personagem – para resolver seus problemas. Felizmente, não há qualquer possibilidade de sair com essa sensação. Rebelde, desbocada e firme nas decisões (ainda que equivocadas), Kara não só encontra suas saídas por conta própria, mas também cresce como super-heroína.

A motivação individual se expande gradualmente para uma consciência do coletivo que faz com que Supergirl adquira um senso de si importante para seu papel de protetora. Os traumas da origem trágica viram combustível para querer mudar o mundo ao seu redor e, assim, temos uma jovem garota que transforma as dores de ser quem é em movimento para impedir que o mesmo aconteça a outras. E ele não precisa ser uma mulher perfeita para isso.

Esta versão de Kara nos provoca, em alguns momentos, impaciência pela teimosia e pela resistência para fazer o que precisa ser feito, mas acredito que seja justamente a escolha por uma personalidade que não sente a menor obrigação de agradar que a torna mais magnética mesmo seguindo à risca o padrão da clássica “jornada do herói”, que começa com a negação do chamado e termina com a transformação do personagem. Já vimos esta história um milhão de vezes, mas Milly Alcock soube como se tornar autêntica fazendo isso.

Por fim, uma pequena observação: Tudo bem se você se emocionar com um cachorrinho de computação gráfica. Ninguém vai te julgar.