Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Esse Velho Sonho que se Move

O homem, a máquina

por Bruno Carmelo

O roteiro deste drama parece extraído do universo absurdo de Franz Kafka: em uma usina recentemente desativada, um operário é chamado para desmontar a última grande máquina do local. Não há trabalho, mas todos os funcionários demitidos são obrigados a permanecer a última semana no local, já que ainda estão sob contrato. Assim, o filme segue os sete dias necessários a desconstruir o aparelho. Sem explicações (ninguém briga por direitos, não existem patrões ou empresários em cena), o filme desenha um retrato de luto: são homens que perdem o trabalho, o ofício que perde o sentido, e o destino que parece pouco promissor.

Alain Guiraudie filma essa desolação como um senso plástico e ético exemplar: sem miserabilismo nem sentimentalismo, o cineasta compõe diversas cenas da grande usina, em planos sempre muito semelhantes, embora cada vez mais vazios. Aos poucos somem os canos, somem os aparelhos, somem as pessoas. Resta uma carcaça de usina, enquanto os operários ficam ao redor, bebendo, conversando sobre a equipe de futebol. O filme parece não se desenvolver muito, mas pelo contrário, este é exatamente o seu tema: a desolação, o fracasso do projeto capitalista de trabalho. Os diálogos realistas e banais acabam transparecendo a descartabilidade da força de trabalho.

Neste contexto, os homens são sempre mostrados por através das máquinas, fundidos a elas. Não por acaso, o protagonista é Jacques (Pierre Louis-Calixte), o homem-máquina por excelência: um sujeito sem preferências, sem gostos, que executa as suas tarefas de maneira mecânica, individual, sem questionar para que servem os aparelhos que ele mesmo monta e desmonta. Esse Velho Sonho que se Move (nostálgico título) dialoga com Tempos Modernos, de Charles Chaplin, trocando a crítica feroz da produção muda pela depressão pós-moderna.

Enquanto humaniza os operários e destrói as máquinas (ou seja, enquanto retira o homem de sua função de mão de obra para investi-lo de individualidade), o roteiro permite criar neste ambiente inóspito uma chama de desejo: Jacques, nosso operário frio e robótico, declara sua homossexualidade e sua atração por um dos trabalhadores da usina. Não, esta não é uma história de amor, mas de desejo. O jovem explica que não tenta entender os seus sentimentos, apenas quer possuir a pessoa que deseja. O relacionamento foi incorporado na lógica de consumo – o mesmo consumo dos colegas que discutem se vale a pena ou não comprar um carro novo em período de crise econômica.

Como poderia se esperar, não é possível dar vazão aos desejos, nem construir novas amizades neste ambiente estéril. Esse Velho Sonho que se Move conta uma história triste e sem lágrimas, sobre a falência de um projeto, deste “velho sonho” que diz o título. Não há mais esperança para ninguém, nem para os homens, nem para as máquinas. Ambos terminam suas trajetórias desmontados, inutilizados, e afastados do galpão escuro e vazio.