Tão épico quanto A Odisseia, O Bosque Selvagem é o ápice do stop-motion em uma aventura sombria e visceral
por Diego Souza CarlosNavegar pelas redes sociais mudou muito com o passar dos anos. Para uma geração que ainda se lembra dos sons da conexão de internet discada, as transições foram muitas até chegarmos no formato atual. Hoje, descer o feed também significa encontrar inúmeros vídeos e imagens geradas por inteligência artificial. Ame ou odeie, sabemos que a produção desse conteúdo é feita com base em outros trabalhos de ilustradores, animadores e designers. Em meio à essa batalha que discute o uso de IA, o estúdio Laika, uma das maiores referências do cinema stop-motion ao lado da Aardman, lança uma obra-prima das animações que refuta a ferramenta mais utilizada da atualidade.
Uma obra-prima das animações, este é O Bosque Selvagem
Mesmo para os olhos menos treinados, a magia do stop-motion se revela de maneiras muito curiosas. Ela pode ser notada pela movimentação dos personagens, o ponto de maior destaque entre aqueles que adoram cinema, mas também está na identificação dos materiais, maquetes, efeitos de luz e, de volta ao ponto inicial, o comportamento dos frames em comparação a outras produções animadas. O Bosque Selvagem é nitidamente uma peça que vem deste estilo de animação, mas é possível que seja a mais bela e ousada execução da linguagem até o momento.
Idealizado há mais de uma década e produzido por cerca de 7 anos, o filme dirigido por Travis Knight, que também comandou Mestres do Universo em 2026, é um assombro de extravagância visual. O apreço pelos detalhes é impressionante, da reação das pupilas à luz ao vento nos cabelos e penugem de personagens, da forma como as cenas de ação se desenrolam à manifestação de uma natureza com vida própria. Essa aventura com ares de RPG foi baseada no livro homônimo escrito por Colin Meloy e ilustrado por Carson Ellis, que acompanha uma fantasia sombria que deve agradar os fãs de Coraline e Kubo e as Cordas Mágicas, ambos do mesmo estúdio.
Na trama, uma jovem de 13 anos chamada Prue McKeel precisa recuperar seu irmão mais novo raptado de forma completamente inusitada. Resistente à existência de magia e cética com o folclore local, a jovem acaba seguindo rumo ao bosque selvagem do qual seus pais sempre contaram histórias e fábulas. Ao lado de Curtis, um garoto tão sonhador quanto medroso, ela entra em um mundo complexo onde o encanto da magia não sobrepõe todos os problemas sociais e políticos de uma sociedade escondida do resto do mundo.
A forma como a Laika desenvolveu esse espaço cheio de ecossistemas, tribos, diferentes tipos de criaturas e uma variedade de biotipos humanos, é ambiciosa. Acompanhar cada detalhe já torna a experiência de Wildwood (no original) algo único, de encher os olhos. Há, inclusive, um trecho nos momentos derradeiros do filme em que a escala de ação é elevada a um nível tão grandioso que chega a ser difícil de acreditar que estamos diante de uma obra feita de forma tão procedural - mas falarei sobre isso mais à frente.
O Bosque Selvagem não é um conto comum
Se os aspectos técnicos são tão impressionantes é porque o roteiro de O Bosque Selvagem também não segue os caminhos mais óbvios. Com rimas narrativas com Coraline, Prue é uma garota destemida e geniosa, que ama sua família mesmo sob os efeitos inevitáveis de uma adolescência rebelde. A descrença dela no lúdico e na fantasia não fazem dela uma garota revoltada, mas fruto de um contraste entre o ceticismo e a liberdade de ser contraditória.
Sob uma trilha sonora não tão consistente, mas com ótimas entradas, do flerte com o rock às melodias criadas exclusivamente para a obra, vemos a ascensão dessa heroína errática que preserva o maior trunfo da juventude: uma coragem destemida de agir mesmo diante de claras consequências. Essa chama entra em contato com todos os habitantes da Floresta Impassável, que sofrem a opressão de uma rainha autoproclamada, que não poupa esforços para atingir seus objetivos.
Com a entrada da Rainha Viúva Alexandra temos o início da passagem por temas cada vez mais densos à trama, algo que, na verdade, já é feito brevemente na abertura do filme. A encorpada sociedade deste bosque mágico opera de maneiras abstratas: um prefeito corrupto, aves sábias e omissas, animais humanoides que lutam contra os próprios instintos para serem aceitos, um grupo rebelde que protege suas terras como povos originários e minoritários do mundo real, entre outros. Tudo é grandioso, arquitetado com diferentes paisagens e formas de se fazer política.
O luto, a violência e a ambição em Wildwood
Através da trágica história da matriarca cega pelo luto, todos acabaram cedendo aos conflitos internos e externos que, além das tensões básicas de um universo de fantasia, ainda precisam lidar com uma força incontrolável da natureza. A personagem dublada por Carey Mulligan no original personifica tantas mulheres que viram suas crias partindo precocemente. A loucura e a violência dessa mãe são fruto de uma dor terrível, causada pelo aspecto inusitado que abala qualquer vida - que podemos chamar simplesmente de acaso ou má sorte.
Os atos dela são injustificáveis até que ponto? O conflito ético e moral que surge a partir daí é cativante e mostra, inclusive, para um público que deve ter de crianças a adultos, como as áreas cinzentas são o grande mar que se abre diante da vida. Quando existe o fator mágico envolvido, tudo se torna possível e os limites podem ser quebrados facilmente. Como julgar alguém vivendo uma dor tão grande sem ponderar, mesmo que por um segundo, de onde surgiu essa força destrutiva?
Infelizmente o ponto com mais tropeços do longa, o enredo cai no “erramos por amar demais” enquanto tenta abraçar diferentes arcos durante a trajetória de Prue. Nada que atrapalhe a experiência como um todo, mas o próprio desenvolvimento da protagonista acaba prejudicado quando tantas histórias interessantes a orbitam - e uma delas está em Curtis, outro grande destaque dessa história.
Ousado, O Bosque Selvagem é um dos grandes épicos do século
Por sorte da Laika e Knight, O Bosque Selvagem já tinha uma mitologia própria quando começou a ser produzido. Afinal, trata-se do primeiro livro de uma trilogia. Esse universo abrangente ganha vida na tela como, provavelmente, nem o autor nem a ilustradora poderiam prever. É realmente magistral, violento, afiado, provocativo e, além dos vários elogios, a maior obra de stop-motion da história em termos de duração e escopo. É como O Senhor dos Anéis das animação, uma obra de fantasia disruptiva e ousada.
Visualmente interessante, essa sociedade da Floresta Impassável vive uma crise sem precedentes que ganhou um faísca chamada Prue, mas que também chega com outro grande arco dessa história: Curtis. O garoto fascinado por heróis e guerreiros de jogos de RPG acaba entrando em um mundo onde precisa se tornar um destes personagens. É impactante ouvir logo no início do filme que a violência não é apenas uma ferramenta da ficção, mas algo que existe no mundo e tem efeitos devastadores.
“Se você anseia em usar uma arma na mão, saiba o que isso significa”, diz uma personagem. Essa relação com a coragem e o peso de se lutar pelo bem dos outros, mesmo com mortes e devastação no pacote, se torna concreta com o último ato de Wildwood e tem um efeito dramático sobre o garoto. Mesmo pacifista, conforme dito em um melancólico diálogo, ele entende que a ferramenta de contra-ataque de uma revolução de um mundo tão engenhoso como primordial é esta.
“Se tiverem que lutar, que assim seja”, pondera uma anciã que ouve as preocupações de Prue sobre pessoas inocentes que se dispuseram a defender o mundo onde vivem. A partir daí, uma verdadeira batalha se instala na garra de seres oprimidos, uma sequência épica que vai deixar muita gente boquiaberta com a ação visceral que se apresenta na tela.
Entre magia, a descoberta de que adultos estão tão perdidos quanto os jovens e o brilhantismo de O Bosque Selvagem - que com certeza dará trabalho para Toy Story 5 e Ray Gunn na temporada de premiações -, vamos da magnitude a pequenezas que fazem a história ser tão cativante. O que fica, além da ambição artística da Laika, é a difícil lição de que crescer é muito difícil e não existem respostas fáceis diante do sofrimento, mas sempre há pelo o que lutar.