Críticas AdoroCinema
1,5
Ruim
Wheely - Velozes e Divertidos

Sem direção

por Bruno Carmelo

A chegada desta animação aos cinemas ostenta um propósito claro: para além de sua singela história sobre aceitação de si próprio e superação de obstáculos, Wheely busca surfar na onda de sucessos como Carros, da Pixar, no qual é evidentemente inspirado. O slogan original, traduzido como “velozes e divertidos”, faz referência a Velozes & Furiosos. A modesta produção da Malásia, Maldivas, Brunei e Djibuti não aspira à originalidade, limitando-se a trazer um produto derivado, assumido como tal, que agrade pela familiaridade do público com os universos relacionados.

O projeto poderia servir como um exercício, uma possibilidade de países de cinematografia pouco expressiva demonstrarem que não fazem feito perto dos grandes. O problema é que, justamente pela proximidade com Carros e demais filmes, Wheely - Velozes & Divertidos tem suas deficiências acentuadas. O público adulto e infantil contemporâneo está acostumado a técnicas de animação avançadas, além de roteiros cada vez mais complexos no que diz respeito a temas sociais e psicológicos. Ora, o concorrente asiático é de uma simplicidade extrema, a começar pelo protagonista, um carro sem vontades nem objetivos, que se envolve numa sucessão de problemas aleatórios.

Incomoda o fato de o personagem ser descrito como um pré-adolescente - pela voz da dublagem, pelos cuidados da mãe, pelos bordões como “Que meleca!” -, mas se apaixonar por um carro feminino adulto, equivalente a uma figura voluptuosa, que se limita à mulher bela e frágil, precisando ser disputada pelos homens, e resgatada das garras do vilão. A concepção antropomórfica dos personagens é mal resolvida: mais do que carros com feições humanas, eles se parecem com humanos transformados em carros. Os veículos do roteiro compram alianças de casamento, comem, bebem e citam a reprodução - sabe-se lá como. Através da personificação das peças mecânicas, valoriza-se um mundo viril tendo como ápice o anacrônico duelo de machos envolvendo o ronco de motores, perseguições e explosões.

Tecnicamente, o resultado é discreto, e talvez passasse por um bom exemplar digital alguns anos atrás. No entanto, em pleno 2018, o trabalho simplificado de iluminação e as texturas lisas e brilhantes demais transmitem uma artificialidade mais próxima do videogame do que das movimentações e volumes obtidos pelas animações mais complexas. É improvável que as crianças se incomodem com elementos como estes. Mas o humor pouco desenvolvido e a narrativa dispersa impedem a criação de personagens únicos, memoráveis. Mesmo o tradicional parceiro cômico, o tagarela Putt Putt, existe apenas para servir ao protagonista, aparecendo e sumindo da trama quando convém aos roteiristas.

Algumas animações contemporâneas recebem críticas por seguirem uma fórmula, muitas vezes maniqueísta e superficial, privilegiando as lições morais ao cuidado com a forma. Wheely - Velozes & Divertidos encontra dificuldade mesmo na construção básica desta fórmula. Talvez ele sirva, em seus países de origem, como um passo importante e necessário ao desenvolvimento de projetos mais complexos num futuro próximo. Mas para o público internacional, acostumado a filmes da qualidade Pixar, Disney, Dreamworks, Laika e Aardman, o resultado é frágil demais.