Críticas AdoroCinema
1,5
Ruim
Acrimônia

Do sofrimento ao delírio

por Barbara Demerov

Segundo o dicionário, acrimônia significa "aspereza e severidade". E é com muita severidade que a personagem Melinda Gayle (Taraji P. Henson) narra sua história de fidelidade e desencanto como esposa de Robert (Lyriq Bent). Por muitos anos Melinda foi uma base sólida na vida de Robert, tanto emocional quanto financeiramente - principalmente na segunda parte, uma vez que investiu todo o dinheiro herdado da mãe em um projeto do marido. Dividida entre o amor que sente e a coragem para largá-lo e seguir com sua vida, o filme traça uma série de fases pelas quais a protagonista passa ao longo de diferentes situações.

A direção e o roteiro de Tyler Perry se apegam muito aos sentimentos da protagonista e acabam induzindo o espectador a ver apenas um lado do panorama total: o dela, obviamente. De início isso não parece ser um problema, pois a trajetória do casal (da juventude à vida adulta) é bem conduzida. No entanto, com o passar da narrativa as atitudes e falas de Melinda vão se tornando dúbias, fazendo com que a história careça do drama necessário para que suas lutas internas sejam trabalhadas com consideração.

Acrimônia poderia apresentar a volta por cima de uma mulher que sofreu por anos em silêncio acreditando nas falas do marido de que "um dia tudo daria certo", mas não executa isso. Por breves momentos é possível ver a força intrínseca de Melinda, mas até mesmo esses vislumbres de força são jogados fora a partir do momento que o roteiro inverte completamente todas as situações abordadas ao nos apresentar um "novo" e bem-sucedido Robert. Quando vemos as reações de Melinda irem por água abaixo, acaba sendo plantada uma dúvida: será que estamos vendo o que a personagem acredita ou o que aconteceu de fato?

Fica muito clara a intenção de Perry de entregar um thriller movido por sentimentos intensos, mas tal escolha aparece apenas no terceiro ato e torna-se completamente desconexa ao tratar a personagem de Taraji de forma absurda, até mesmo cômica. Por mais que se esforce em entregar uma atuação marcante, a atriz também sai como prejudicada. Melinda é resumida a atos impulsivos de pura vingança - e o roteiro quer mesmo pular o desenvolvimento das motivações para chegar direto até a parte em que o circo pega fogo.