Críticas AdoroCinema
2,0
Fraco
A Pequena Sereia

De volta para casa

por Barbara Demerov

Sem Úrsula, Linguado e Sebastião, a versão de A Pequena Sereia dirigida por Blake Harris e Chris Bouchard foca na aventura da jovem (que aqui se chama Elizabeth) fora do mar, o que resulta em um conto bem diferente daquele que já conhecemos do clássico da Disney. No live-action, a história do desenho animado só se assemelha brevemente durante a narração que abre a trama, mas ela logo toma outro rumo: o jovem que a sereia se apaixona acaba se casando com outra mulher e Elizabeth, que havia trocado sua alma por pernas e tinha o desejo de viver com tal "príncipe", passa a ficar à mercê de um bruxo que possui total controle de sua vida.

É no mínimo curioso ver um filme sombrio sobre uma das princesas mais queridas da cultura pop. Mas, apesar de ser intrigante conhecer um outro lado da sereia em uma produção infantojuvenil, a execução da história fraqueja por não possuir muito carisma. Apesar do elenco dedicado e variado, o roteiro não auxilia em uma completa imersão, pois falta autenticidade no que está acontecendo ou sendo dito. Os atores (especialmente o trio Loreto PeraltaWilliam Moseley e Poppy Drayton) se esforçam para extrair o máximo de naturalidade nas situações vividas, mas esta se torna uma tarefa difícil diante das viradas impostas pelo texto.

Além da dificuldade que o roteiro possui em explorar mais a própria sereia, ele ainda opta por incluir situações relacionadas ao circo do bruxo Locke (Armando Gutierrez) – local em que a protagonista e outros seres com poderes singulares se encontram –, a escassez de artifícios técnicos dificulta muito na seriedade que a trama tenta introduzir aos poucos. Os efeitos especiais, os figurinos e até mesmo a maquiagem possuem qualidades bem reduzidas (sem dúvidas devido ao baixo orçamento, de aproximadamente U$ 5 milhões), e os movimentos de câmera nada ajudam na atratividade visual. Contudo, é preciso pensar que, por mais precários que sejam, os elementos citados são suficientes para que o público infantil compre este universo e suas singularidades, especialmente nas passagens mais coloridas dentro do circo.

Como este é um filme focado em crianças (apesar da aura carregada de drama), há muitas muitas explicações encontradas ao longo da narrativa. Por outro lado, se há uma coisa na qual o roteiro acerta é no ceticismo do personagem Cam (Moseley), que vai encontrando aos poucos razões para acreditar em magia e outras coisas extraordinárias. Sua relação com a sobrinha Elle (Peralta) é bem trabalhada e forma o maior elo da história – até mais do que o elo da dupla com a sereia Elizabeth, que aparece em suas vidas de forma delicada e forma uma ajuda bilateral.

A Pequena Sereia peca bastante em seus elementos técnicos, que claramente ajudariam muito a produção a atingir um bom patamar dentro das adaptações independentes de clássicos da literatura. No entanto, é entrando em pequenos detalhes, como na breve participação de Shirley MacLaine, que o filme encontra uma força singela. Ao subverterem o ideal da sereia e simplesmente darem como missão seu retorno ao mar sem um príncipe ao lado, já temos algo bem interessante para tirar desta versão.