Críticas AdoroCinema
3,5
Bom
O Monstro de Mil Cabeças

Medidas drásticas

por Francisco Russo

A vida em sociedade não apenas provoca maravilhas no sentido da coletividade, como também absurdos decorrentes das cobranças do capitalismo e do próprio egoísmo existente em cada um, que faz com que muitas vezes não se olhe para quem está ao lado, independente do que aconteça. Sociedade Indiferente (ou "Un Monstruo de Mil Cabezas", título original), livro escrito por Laura Santullo que ganhou adaptação para as telonas roteirizada pela própria autora, aborda exatamente este anacronismo, existente principalmente nas grandes cidades ao redor do planeta.

A história se passa no México, mas a bem da verdade poderia ser em qualquer outro país. Uma mulher, desesperada ao ver seu marido doente piorar cada vez mais, resolve cobrar do médico o porquê do plano de saúde, pago religiosamente há 16 anos, não ter aceitado custear o tratamento dele. Com o filho adolescente a tiracolo, ela enfrenta desculpas esfarrapadas para não ser atendida - mera tática para se livrar da cliente incômoda, afinal de contas é sexta-feira. Revoltada com tamanha indiferença, ela toma uma medida drástica: saca uma arma e exige, ali mesmo, que seja ao menos ouvida.

Não é de hoje que o cinema oferece ao expectador tramas em que a burocracia do Estado, a tensão da vida moderna e mesmo o desinteresse da sociedade em geral pelas miudezas de alguém em particular são expostas desta forma. Um Ato de Coragem, Um Dia de Fúria e até o recente Relatos Selvagens, no episódio estrelado por Ricardo Darín, abordam situações do tipo, cada um à sua maneira. O que diferencia Sociedade Indiferente de todos os filmes citados é a forma como o diretor Rodrigo Plá conduz a narrativa: em tom quase documental, com bastante câmera na mão, muitas vezes colocando a personagem principal em segundo plano ou até desfocada, de forma a realçar a indiferença dos demais à sua volta. É apenas quando a arma vem à tona que a câmera passa a procurá-la automaticamente, dando à personagem um protagonismo de cena decorrente não dos apelos pela vida do marido, mas pela possibilidade do crime iminente - mais um sintoma desta realidade cínica, onde o bem-estar e a própria vida não são tão importantes assim.

Diante de uma proposta narrativa tão bem executada, a tensão crescente é uma consequência natural da própria história. Ela terá sucesso em sua batalha solitária? O filho que a acompanha ficará ao lado da mãe? Como os médicos e burocratas buscarão meios de se defender? Todas estas perguntas têm resposta, e é o modo como elas surgem que, de certa forma, implodem o filme: através de uma narração em off, durante a própria ação. Ou seja, o espectador vê o que acontece e ouve relatos do desenlace daquele mesmo ato, o que não apenas antecipa desnecessariamente o desfecho como diminui muito a tensão decorrente do que acontece em cena. Um tiro no pé.

Por mais que a segunda metade tenha este sério complicador, ainda assim Sociedade Indiferente é um filme contundente sobre o mundo atual e seus absurdos que, infelizmente, soam tão familiares a muitos de nós. Bom filme.

Filme visto no 17º Festival do Rio, em outubro de 2015.