Filme vencedor de Cannes 2026 quase gabarita temas polêmicos em história plana, mas com boas atuações
por Aline PereiraBem, só faltou mesmo o futebol para que o diretor Cristian Mungiu gabaritasse a lista de assuntos mais polêmicos da nossa sociedade, mas todo o resto está lá em Fjord: religião, cultura, governo e criação de filhos. O filme chegou à programação 50ª Internacional de Cinema em São Paulo já com o peso – e as expectativas – da Palma de Ouro, o troféu de melhor filme que recebeu no Festival de Cannes.
Entre todas as sessões de que participei nos últimos tempos, esta foi uma das que mais senti viva a reflexão sobre uma variedade de aspectos entre o público nos comentários pós-filme. É o tipo de obra que gera uma discussão que, em grande parte, extrapola o formato do filme e gira em torno da complexidade do conflito proposto no mundo real.
Fjord nos apresenta a uma família religiosa que passa a viver na Noruega e se vê no meio de um conflito com as leis locais. Quando uma das crianças da família chega à escola com um hematoma, a professora desconfia de agressão por parte dos pais e os denuncia ao serviço de Proteção à Criança, que retira os filhos deles e os entrega a outras famílias. O casal, então, entra em uma batalha judicial para provar que não houve agressão e que o contato físico com os filhos foi “palmadas no bumbum”, longe do que eles consideram violência.
Sem tomar posição, Fjord coloca público em julgamento profundo
O que se desenrola a partir da separação da família é uma longa disputa legal em que, de um lado, há um estatuto rígido quanto ao uso de força física (ainda que “só um tapinha”) em crianças e, do outro, pais que levam uma vida aparentemente tranquila, se consideram amorosos e não querem assinar a declaração em que admitem ter sido violentos.
Além disso, entra na equação também a questão religiosa: a criação conservadora das crianças aparece na interação com os colegas. Não quero dar spoilers para não estragar a experiência, mas há uma série de pontos entre discriminação, liberdade de expressão e perseguição religiosa.
Todas essas questões são exploradas por Fjord de forma que parece isenta de algum viés criativo. Os fatos são expostos sem muitos “poréns” e também sem muito aprofundamento nos personagens: o que estamos acompanhando é um recorte curto e específico da vida daquela família, sem muito contexto prévio ou muito detalhado sobre os costumes deles. Portanto, há também a sensação de que não temos todos os elementos claros. O que, aliás, também pode ser um ponto de discussão: isso mudaria o julgamento?
O tema que meio veio à mente primeiro, enquanto a história desenvolvia seu objetivo, foi algo em torno do impacto da cultura na justiça de um local. Ela existe, é claro, mas quando estamos falando, por exemplo, desta família que veio de outro lugar, com outra cultura, como se adequa uma coisa à outra?
A resposta simples é que, estando em um local, valem as leis dele, mas como estamos falando da separação de uma família e do futuro de 5 crianças, sinto que vêm também as ressalvas morais. E a moral é algo muito particular.
Nesse sentido, acredito que Fjord vai deixar no público cheio de “mas…”, embora ele mesmo não seja “emocional” ao explorar seus assuntos. Não sinto um incômodo com essa escolha, particularmente, mas, no fundo, também penso que faltou um pulso mais forte para contar essa história.
Sebastian Stan e Renate Reinsve: Elenco de Fjord é ótimo
O casal principal é interpretado por uma dupla em sintonia. Renate Reinsve deve ser uma das atrizes europeias de maior destaque no cinema ultimamente, com trabalhos reconhecidos em Valor Sentimental, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026, e Backrooms, filme de terror que se destacou no mesmo ano. Enquanto isso, Sebastian Stan já é, há algum tempo, uma figura versátil no cinema de Hollywood, de Capitão América na Marvel a Um Homem Diferente, que, inclusive, também tem Renate no elenco.
Renate parece ter uma sensibilidade e delicadeza inata e aqui, convence na aflição de uma mãe prestes a perder todos os filhos, inclusive um bebê que ainda amamenta. Sebastian Stan, com uma caracterização que o deixou praticamente irreconhecível, é um personagem mais enigmático, no sentido de que parece estar escondendo algo do público, ao mesmo tempo em que a aflição parece tão profunda quanto a da mãe. As nuances que o roteiro joga no colo do público são complementadas, assim, por atuações que acompanham a atmosfera fria da Noruega.
Em paralelo, há uma outra família na história de Fjord que aparece de forma mais pontual - mas que tem uma dinâmica clara para o público, acredito. A filha adolescente destes vizinho desenvolve uma relação próxima aos do casal principal e sinto também a inclusão da ideia de como a juventude pode ser a “solução” de barreiras tradicionais através de novos valores que, daqui há algumas décadas, tem tudo para gerar um novo Fjord, com novos dilemas ou, quem sabe, com menos deles.
Filme assistido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.