Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Cópia Fiel

O Valor da Cópia

por Francisco Russo

Responda rápido, caro leitor: se você tiver oportunidade de escolha, prefere ter um produto original ou uma de suas cópias? A resposta à primeira vista parece óbvia, com a predileção pelo inédito. Só que uma cópia não necessariamente significa ter algo de qualidade inferior, ainda mais quando é feita de forma a ressaltar o que há no original. Cópia Fiel retoma esta velha discussão no ambiente artístico provocando um desafio, onde ele próprio se torna a cópia de um romance idealizado.

Tudo começa com o lançamento do novo livro de James Miller (William Shimell), o tal "Copie Conforme" do título original, na Itália. Ele prega que a cópia agrega valor ao original, justamente por valorizá-lo ao ponto de ser imitado. Logo após uma palestra, James encontra Elle (Juliette Binoche), a dona de uma galeria de arte que comprou vários de seus livros para dar de presente. Os dois passam a tarde juntos, perambulando por recantos italianos e discutindo, sobre a arte e a vida.

O que a princípio aparenta ser um filme cabeça, com vários diálogos teóricos, logo se torna um delicioso quebra-cabeças. O diretor Abbas Kiarostami está mais interessado em levantar dúvidas do que apresentar respostas, no sentido de provar ao espectador o valor de uma boa cópia. Para tanto usa o relacionamento de seus personagens principais, que se transforma no decorrer da história. Tudo ambientado em locais belíssimos, acolhedores aos personagens e também ao público. Observar detalhes tão singelos, como onde tomam um café ou as ruas estreitas da pequena cidade visitada, por si só já valem a pena. Dá vontade de conferir de perto aquele espaço tão aconchegante e ao mesmo tempo tão rico, em cultura, tradição e beleza.

Para melhor explorar o local onde a trama acontece, Kiarostami optou por usar a mesma fórmula empregada em Antes do Amanhecer e sua sequência Antes do Pôr-do-sol. Ou seja, os personagens andam e conversam, o tempo todo, sobre os mais variados assuntos. De pontos conceituais sobre a arte até a vida de Elle, passando por questões como a educação dos filhos e as dificuldades de um casamento aos seus 15 anos de existência. Em meio ao falatório, surge a aproximação e a descoberta. O duelo intelectual de início aos poucos se torna uma espécie de jogo, no qual cada participante é incitado a mergulhar de cabeça. Como resultado, uma história envolvente e desafiadora, pelos questionamentos levantados.

Além do roteiro e da direção, outro grande trunfo de Cópia Fiel atende pelo nome de Juliette Binoche. Ela simplesmente dá um show em cena. Fala em três idiomas, fica nervosa, discute, luta para provar seu ponto de vista, brinca e seduz. Trata-se de uma interpretação radiante e de grande naturalidade, que traz veracidade ao relacionamento exibido. William Shimell até tem uma boa atuação, mas fica em segundo plano diante do encanto causado pela atriz.

Cópia Fiel é um filme que desafia o espectador a compreender o que, de fato, acontece na trama. Quem procura roteiros redondos no sentido de ter tudo bem explicado, sem pontas soltas, deve ficar longe. A dúvida está em seu DNA, tanto quanto tentar decifrar, a olho nu, se algo é original ou uma cópia. Muito bom.