Críticas AdoroCinema
3,0
Legal
Maradona

NO JOGO DA VIDA

por Roberto Cunha

Se você consegue deixar de lado a rixa entre Brasil e Argentina no futebol e, mais precisamente, entre Maradona e Pelé, assistir o filme sobre o craque argentino pode ser interessante. Maradona é, acima de tudo, um filme feito por um fã. Emir Kusturica levou cerca de dois anos para concluir este documentário onde disseca a vida do atleta, usando muitas imagens de arquivo, animações e depoimentos. Para o diretor, "Diego fala com o coração".

Mais do que ver ou rever (muitas vezes) os belos gols feitos por ele, você vai se deparar também com a devoção dos torcedores (tem até igreja Maradoniana), o engajamento político e a "humanidade" do atleta que tornou-se, na verdade, sua salvação e salvo conduto dado pelo povo. Assim, não se trata de uma obra voltada só para quem gosta do esporte. Chamado pelo cineasta de "Sex Pistols do futebol", numa analogia com o grupo punk inglês, o filme relembra diversas vezes a importância dos gols de Diego na Copa, contra a Inglaterra do fatídico episódio das Malvinas. E sacaneia os inimigos (Tatcher, Charles, Reagan, Blair, Bush) com animações bem humoradas ao som dos Pistols.

Kusturica usa também cenas de seus filmes (Gato Preto, Gato Branco ou Quando papai saiu em viagem de negócios) para traçar paralelos com a vida do biografado. Uma possível derrapada (para alguns) foi a clara panfletagem política anti imperialista manifestada através de imagens e falas de líderes controversos como Fidel Castro, Hugo Chavez ou Evo Morales. E como a polêmica é marca registrada de Dieguito, sobram farpas "pontudas" para a máfia napolitana, armações em Copa do Mundo, João Havelange e Joseph Blatter, da FIFA.

Quando mergulha no lado humano é a hora que mais mexe com a emoção. Com cenas recentes e muitas de arquivo, não é difícil ver sinceridade nas palavras Diego Armando Maradona em cenas com as filhas pequenas, quando assume em público o seu erro ou diz "me cortaram as pernas". Na verdade, é triste ver o que a droga fez ou faz com um homem. Maradona deixa claro que o jogador que enfrentou verdadeiras "guerras futebolísticas", autor do gol conhecido como "a mão de Deus" continua enfrentando o maior jogo de todos: o da vida. "Eu sei a culpa que carrego e não tenho como curá-la".