Críticas AdoroCinema
5,0
Obra-prima
La Bola Negra

La Bola Negra reconta histórias gays apagadas da memória espanhola

por Paulo Ernesto

La Bola Negra foi um dos filmes mais aguardados dos últimos dias do Festival de Cannes 2026 e entregou uma obra à altura da expectativa. A curiosidade já existia antes mesmo da estreia, por ser uma obra assinada por Javier Ambrossi e Javier Calvo, os criadores de Veneno, série de grande repercussão e reconhecida pela qualidade técnica. Em La Bola Negra, eles constroem seu ultimo longa metragem com ainda mais ambição.

Uma homenagem a García Lorca como ponto de partida.

O filme parte da leitura feita pelos diretores da peça La Piedra Oscura de Alberto Conejero, sobre o último amor de Federico García Lorca, o soldado Rafael Rodríguez Rapún. O texto os marcou profundamente e motivou grande parte das escolhas narrativas. A partir daí, Los Javis constroem uma história que percorre três faixas temporais (1932, 1937 e 2017) acompanhando protagonistas jovens e gays em cada época.

O fio condutor é a própria obra de García Lorca. Vários elementos narrativos vêm diretamente de seus escritos, incluindo a linha temporal que dá nome ao filme. Os diretores conseguem trazer o onirismo do poeta para dentro do longa de maneira elegante e muito bem resolvida.

O entrelaçamento entre a realidade histórica espanhola, o universo onírico e a herança cultural de Lorca é um dos principais méritos do roteiro. O filme costura épocas sem perder coerência, e a montagem sustenta o ritmo e a potência narrativa mesmo lidando constantemente com a passagem entre diferentes linhas temporais.

O amor através do tempo

As três histórias dos protagonistas se constroem em paralelo e se entrelaçam ao longo do filme.

Milo Quifes interpreta Carlos, o protagonista do conto de García Lorca que dá nome ao filme. Ele precisa ser aceito em um conselho local e para isso oculta sua sexualidade, pois bastam rumores para arruinarem a votação que define seu destino e decepcione o pai. Ao redor dele, figuras bizarras se impõem de maneira esteticamente sufocante, e Carlos precisa provar sua indispensabilidade em meio a um conflito capaz de destruir fisicamente a cidade e a instituição em que se encontra. Essa luta por pertencimento reforça, não por acaso, a própria trajetória da obra que conduz essa linha temporal.

Miguel Bernardeau vive Rafael, um prisioneiro de guerra ferido que conhece o músico sensível Sebastián, interpretado por Guitarricadelafuente. Com ele, constrói uma relação de amizade e proteção que leva o artista a repensar sua sexualidade, e de onde nasce uma delicadeza crua e muito bela. Guitarricadelafuente já havia aparecido em outros trabalhos dos diretores, mas aqui se prova como ator intensamente entregue. Usando sua trajetória na música, seu personagem discute a violência e a destruição da sensibilidade impostas pelos conflitos armados. Constantemente empurrado para longe de tudo que ama, ele segue buscando os pedaços de humanidade que o constituem. Nessa narrativa, os diretores trazem a intimidade dos corpos de maneira respeitosa e ao mesmo tempo muito próxima do desejo e da impossibilidade.

Carlos González vive Alberto, um estudante já inserido no mundo dos aplicativos de relacionamento, que vive com o namorado em uma relação desconstruída e recebe a notícia da morte do avô. Ele também carrega uma relação muito conturbada com a mãe, a quem acusa de tê-lo criado mal e não consegue perdoar. As cenas entre os dois são das mais impactantes do filme, construindo uma tensão simultânea de carinho e ódio possível justamente porque nenhum dos dois conhece a história inteira do outro. É essa história que vai sendo revelada ao longo do filme, e é pelo olhar de Alberto que o longa faz sua reflexão mais poderosa sobre como o passado da comunidade queer foi sistematicamente oprimido, sufocado e apagado.

Para compor esse universo, os Javis reúnem grandes nomes em participações especiais. Penélope Cruz integrou o elenco a pedido próprio, por conhecer o trabalho dos diretores e querer fazer parte do projeto. Sua cena cantando em cima de um tanque é uma das mais marcantes do filme, reforçando a necessidade de desconexão da realidade que a guerra impõe e trazendo um lado lúdico que homenageia as divas da comunidade queer.

Glenn Close tem uma participação pequena, mas certamente inesquecível, falando em espanhol e trazendo consigo a reflexão sobre como histórias espanholas muitas vezes são contadas por olhares de fora, capazes de escapar das convenções que sufocam quem está dentro. Trabalhar com tantos personagens e fazer com que todos sejam lembrados é uma das maiores habilidades do filme.

Pedro Almodóvar assina a produção, chancelando os diretores em uma nova fase e contribuindo para consolidar uma linguagem própria para tratar de temas que ele mesmo domina tão bem.

Um épico espanhol

A reconstituição de época é impressionante. Os efeitos especiais têm muita qualidade, há cenas com centenas de figurantes e uma grande produção palpável em tela. É um filme que parece caro e pensado detalhadamente, construindo uma atmosfera ao mesmo tempo mágica e realista.

Há o realismo fantástico característico de García Lorca, mas também a aspereza da vida concreta, os lugares onde os personagens se escondem, os corpos feridos, o afeto sufocado pelo entorno violento da guerra. O filme tem a elegância de mostrar esses encontros e relacionamentos com cuidado e beleza, sem recuar das cenas mais gráficas e impactantes quando necessário.

Vale mencionar que os Javis estavam passando por um processo de separação durante a produção. O filme acabou sendo também uma forma de definir como seguir trabalhando juntos, cada um trazendo o melhor de si, um mais atento aos detalhes e o outro com uma abordagem mais lúdica. Dá para perceber essas duas camadas no resultado final, na liberdade criativa e sensível que convive com uma estrutura técnica muito bem pensada, além de uma delicadeza particular para tratar do amor e de como ele pode ser expresso de formas muito diferentes.

Impacto em Cannes

Mesmo sendo um épico de grande escala, La Bola Negra se preocupa profundamente com seus personagens, aprofundando-se emocionalmente em cada um deles. Já nas cenas iniciais, o filme constrói uma sequência de guerra extremamente emocionante, que deixa o público arrepiado, e mantém essa sensação constante de ameaça e tensão até o fim.

Uma das discussões centrais do filme é a comparação histórica de até onde a comunidade LGBTQIA+ conseguiu avançar e como colocar os problemas de hoje em perspectiva diante de pessoas que vieram antes e foram impedidas de viver seu amor. A história da votação, por exemplo, mostra como rumores sobre homossexualidade podiam definir vidas inteiras e leva o espectador a refletir sobre o quanto esse cenário mudou, ou não, nos dias de hoje.

O filme também ressalta como muitas pessoas desconhecem a história de seus antepassados, especialmente de figuras queer, e como essa lacuna dificulta a compreensão do presente. Além de épico histórico, La Bola Negra cumpre a função de apresentar García Lorca à novas gerações e a públicos fora da Espanha, sobretudo no que diz respeito à sua vida privada, que foi sistematicamente apagada da história.

O impacto na plateia de Cannes foi imenso. La Bola Negra saiu do festival com 20 minutos de aplausos, um dos maiores registros da história do evento. Além de levar o prêmio de melhor direção para Javier Ambrossi e Javier Calvo dividido com Paweł Pawlikowski responsável por A Terra do Meu Pai.

É, com certeza, um dos melhores filmes desta edição e que tendem a durar muito tempo artisticamente.

La Bola Negra foi visto durante o Festival de Cannes e ainda não tem data de estréia confirmada no Brasil.