Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte reinventa o slasher com um olhar queer e feminino.
por Paulo ErnestoAcampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte estreou como filme de abertura da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes. O longa é o novo trabalho de Jane Schoenbrun, que dirigiu anteriormente Eu Vi o Brilho da TV, e traz no elenco duas atrizes marcantes, Hannah Einbinder, conhecida principalmente pela série Hacks, e a veterana Gillian Anderson.
A trama acompanha Kris (Hannah Einbinder), uma diretora e roteirista queer de cinema convidada a trazer de volta às telas uma famosa franquia slasher. A proposta é atualizar a linguagem desses filmes, ampliando a perspectiva inclusiva e tornando a história mais conectada às discussões contemporâneas.
Aos poucos, conhecemos melhor essa protagonista, que vive um relacionamento aberto com uma pessoa não binária, também envolvida com um homem bissexual. Embora esse núcleo não seja tão aprofundado, ele ajuda a revelar aspectos da vida íntima de Kris e reforça por que ela pode ser a pessoa certa para ressignificar aquela franquia.
Afinal, ela é profundamente apaixonada por essa saga, que, segundo confessa, foi responsável por despertar seu amor pelo cinema, especialmente pelo terror e pelo slasher, além de contribuir para a compreensão de sua própria sexualidade.
Terror em um olhar queer
Durante o processo, Kris tenta marcar um encontro com Billy Preston (Gillian Anderson), a protagonista e final girl dos primeiros filmes da franquia. No passado, essa atriz deu vida à grande heroína da saga que agora, afastada da indústria, vive reclusa.
Esse primeiro contato já desperta enorme tensão na diretora. Apesar de seu profissionalismo, ela ainda se vê como fã e não sabe ao certo como será recebida, nem se aquela antiga estrela estará disposta a ajudá-la.
A partir daí, a obra começa a construir uma interessante metalinguagem com os códigos do terror. Kris se perde na neve, o GPS deixa de funcionar, ela passa por estabelecimentos estranhos e quase vazios, encontra personagens excêntricos e descobre que muitos deles têm alguma conexão com os filmes originais, seja por pequenas participações ou por vínculos indiretos com aquele universo.
Quando finalmente encontra a atriz, descobre que ela vive em um dos cenários originais da franquia, comprado após as filmagens. O ambiente reforça a sensação de isolamento, estranhamento e até perigo para a roteirista que tenta se aproximar.
Muita química e medo
Conforme a história avança, a relação entre as duas se transforma e se intensifica. Billy passa a revelar o que aqueles filmes realmente representaram em sua vida. Para ela, a franquia carrega um peso muito maior do que o fascínio nostálgico ou a paixão cinéfila que Kris sente.
A partir dessa aproximação, o longa começa a construir uma tensão sexual entre as duas personagens, explorando a intimidade e o vínculo entre mulheres de maneira sensível, especialmente ao mostrar o quanto ambas foram marcadas por pressões, violências e traumas de relacionamentos anteriores.
O sexo é tratado aqui de forma cuidadosa e pouco convencional. Schoenbrun se interessa menos pela exposição dos corpos e mais pela dimensão psicológica e sensorial do desejo, algo ainda raro em obras ligadas ao terror.
Essa inversão é uma das escolhas mais inteligentes do filme, já que o gênero slasher historicamente retratou o corpo feminino de maneira superficial, agressiva e invasiva muitas vezes transformando mulheres em meros objetos de violência ou desejo.
Metalinguagem com críticas ao slasher
A obra revisita essas convenções com inteligência, colocando as personagens femininas no centro das decisões sobre seus corpos, seus prazeres e suas narrativas. Kris também reflete sobre como essas referências moldaram sua relação com o sexo e consigo mesma, em meio à culpa, à incompreensão e aos estímulos contraditórios que carrega.
A química entre as duas atrizes é impressionante. Gillian Anderson constrói uma diva rouca, misteriosa e vulnerável, marcada por um passado nebuloso, mas fundamental para que a protagonista compreenda melhor sua relação com aquele universo e, principalmente, consigo mesma.
Ao mesmo tempo em que presta homenagem a diversas franquias de terror, o filme aponta para os problemas presentes em muitas delas, como o sexismo, a transfobia e os estereótipos herdados de outras épocas. A obra reflete sobre como certos elementos, antes naturalizados, hoje se tornam obstáculos para a retomada dessas histórias em um mundo mais consciente e crítico.
Nesse sentido, a participação de Eva Victor chama atenção. Irreconhecível no papel, ela interpreta uma personagem que reproduz justamente alguns desses estereótipos do passado. A estética contribui para torná-la ainda mais imersa nessa construção, quase invisível dentro da própria caricatura que representa.
O longa utiliza essas convenções para construir sua própria narrativa e entrega ao público do gênero aquilo que ele espera ver, ao mesmo tempo em que desconstrói essas escolhas e as leva a uma nova camada metalinguística. Assim, coloca os filmes de terror em outra dimensão, aproximando-os mais da realidade das protagonistas do que imaginamos.
Uma das sequências mais imersivas e divertidas acontece em uma cena sem cortes ao som de A Long December, de Counting Crows, evocando o terror dos anos 1990 e 2000, mas sob uma nova perspectiva. Ali, os estereótipos são reproduzidos, as mortes esperadas acontecem e as situações de isolamento seguem a lógica clássica do gênero, mas tudo serve a um propósito maior.
Por isso, o filme consegue dialogar com públicos diferentes dentro da mesma narrativa. Há uma primeira camada, em que o terror, o gore e o slasher são celebrados e reproduzidos. Mas existe também uma leitura mais profunda, dedicada a analisar o que foi produzido no passado, como essas histórias têm sido retomadas e quais problemas ainda precisam ser enfrentados nesse processo.
Acampamento Miasma se destaca pela inventividade, pela química entre suas protagonistas e, principalmente, por colocar o feminino no centro de um universo historicamente machista e misógino. Hannah Einbinder e Gillian Anderson mergulham sem medo nessa proposta, ajudando a construir uma obra provocadora, sensual e crítica.
O filme também saiu premiado do festival com a Queer Palm, reconhecimento dedicado a narrativas queer dentro de Cannes.
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte chega aos cinemas em 13 de agosto.