Suspense de Verity é morno, mas entretenimento é garantido com charme de Anne Hathaway e Dakota Johnson
por Aline PereiraEsta é a era das adaptações literárias e nós estamos apenas vivendo nela. Veja bem, não é que os livros não tenham sido, desde sempre, fonte importante para a criação cinematográfica, mas há uma nova onda: basta observar alguns contratos robustos de serviços de streaming, por exemplo, para a produção, em especial, de obras voltadas a um público mais jovem. Nesta esfera, Colleen Hoover é, sem dúvidas, uma das autoras mais proeminentes: em 2024, É Assim que Acaba rendeu assunto (dentro e fora das telas) e, dois anos depois, é a vez do suspense de Verity, que trouxe Anne Hathaway como protagonista e produtora.
No longa, a atriz de O Diabo Veste Prada interpreta a personagem que dá nome ao filme: Verity é uma escritora best-seller que sofre um acidente de carro e acaba ficando catatônica. A editora que publica seus livros decide, então, contratar uma nova escritora para terminar a obra inacabada dela. É quando entra em cena Lowen (Dakota Johnson): ao receber uma oferta irrecusável pelo trabalho, ela assume a função de se tornar a voz de Verity.
O clima começa a ficar sombrio quando Lowen vai morar na casa de Verity por alguns dias para mergulhar nas anotações e rascunhos da autora, que vive reclusa com o marido, Jeremy (Josh Hartnett), e o filho dos dois. A trama, então, gira em torno da relação entre os três: Lowen se envolve com Jeremy, ao mesmo tempo que começa a questionar Verity está fingindo sua condição e que está, sim, em plena capacidade.
Suspense de Verity é morno, mas oferece proposta instigante
A trama tem uma proposta interessante: há dois registros escritos que contam versões completamente diferentes da mesma história e cabe ao espectador escolher em qual acreditar – a comunidade de leitores de Colleen Hoover, inclusive, tem seus já formados "time manuscrito” e "time carta", em referência a estes dois registros que citei. A questão é que faltam, no filme, elementos para tornar os dois lados mais convincentes ou, ao menos, esses fatores demoram muito para aparecer.
A princípio, existe um mistério sobre o que Lowen está presenciando em relação a Verity que leva a crer que uma das duas está equivocada ou manipulando o público, mas as informações dadas sobre as duas personagens não é tão substancial para que fiquemos realmente em dúvida. Assim, a sensação é de que as respostas são um pouco óbvias. Não darei spoilers por aqui, é claro, mas a trama precisa avançar pouco para que cheguemos a uma conclusão e nos resta esperar o final para ver se se o palpite estava certo.
O desfecho, aliás, é outra questão importante: a adaptação é bastante fiel ao livro – o que deve render pontos com a comunidade de leitores –, mas talvez os acontecimentos sejam mais eficientes nas páginas do que na tela.
O que quero dizer aqui é que, como o desfecho é uma parte muito importante da história, muita coisa ficou guardada apenas para ele, quando acredito que dar mais profundidade aos personagens, especialmente para Jeremy e para a própria Verity, poderia acrescentar uma camada de dúvidas mais consistente. Se a proposta da trama é fazer com que personagens pareçam suspeitos, precisamos de motivos para acreditar que são e o longa não mergulha muito fundo nesse aspecto. Senti que isso fez falta.
Apesar de sombrio, Verity é um filme para relaxar
Pensando na obra como um todo, Verity se enquadra, para mim, em uma categoria de filmes que não serão lembrados pela engenhosidade da história ou do roteiro e o fator “entretenimento” pesa muito mais nessa equação. Nesse sentido, acredito que funciona bem e que, se a proposta era essa, o filme alcança seus objetivos.
No geral, a atmosfera me fez lembrar de outras adaptações lançadas pouco antes, como A Empregada e A Mulher Na Janela. O clima de paranoia, ainda que ancorado em argumentos frágeis e sem grandes desafios para o espectador, tem seu certo carisma e apelo. Mais do que isso: tem seu público.
Com isso, quero dizer que um elenco bem escolhido - com duas atrizes que têm tanto o calibre de atuação como de simpatia e reconhecimento do público -, tornam Verity um programa de fim de semana para quem quer desacelerar, relaxar e não pensar muito. Se esta pessoa é você, vá em frente: dá para curtir estas duas horas com um bom balde de pipoca.