Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Tigre de Papel

James Gray descontrói sonhos frágeis do ideal estadunidense em thriller de máfia com os hipnotizantes Adam Driver e Scarlett Johansson

por Diego Souza Carlos

Ir ao cinema para assistir a um filme de James Gray é ter a certeza de que qualquer que seja a história da vez, o drama e o relacionamento entre os protagonistas será esmiuçado e desconstruído ao longo da trama. Tigre de Papel, filme de abertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é um destes projetos - um longa que brinca, a todo instante, com as expectativas das pessoas com determinadas convicções sobre família, poder, negócios e sobre a falácia do sonho (ou do ser) norte-americano.

Tigre de Papel é tanto um thriller de máfia quanto um drama familiar

Tigre de Papel se passa em 1986, um momento em que a máfia russa assentava seus braços em alguns pontos de Nova York, vinda em conjunto de refugiados da União Soviética para os Estados Unidos. Era também um momento de transição em que o sonho americano, da estabilidade, começava a se tornar cada vez menos viável devido às turbulências econômicas do período.

É neste cenário que o engenheiro Irwin Pearl (Miles Teller) construiu uma família ao lado de Hester (Scarlett Johansson) com seus dois filhos. Longe de uma vida de escassez, mas em uma situação em que qualquer deslize financeiro pode ser preocupante, conhecemos esses personagens quase como em um comercial de margarina. O pai amoroso e coruja, os típicos adolescentes rebeldes, mas carinhos, e uma mãe tão durona quanto amável. Nesse espaço, a verdadeira líder do núcleo familiar é a dona de casa, que pondera as ações dos filhos e marido, além de administrar o lar com solidez.

É aí que entra Gary, o irmão de Irwin, que depois de deixar a carreira na polícia decidiu se aventurar pelo mundo dos negócios. Ele chega cheio de pompa, com um Adam Driver que domina a cena no instante em que aparece em frente às câmeras. Após um tempo sem ver seus entes queridos, ele apresenta ao irmão uma oportunidade boa demais para ser verdade e, a partir daí, a vida de todos eles entra em uma espiral de conflitos.

Os arquétipos são postos à mesa com muita naturalidade. James faz de sua sutil direção, um convite ao público para entrar na intimidade destes personagens. É com essa polidez, cores quentes e uma fotografia que emula a época que, aos poucos, ele passa a romper com tudo o que está estabelecido. Uma vez que os irmãos acabam se envolvendo com a máfia russa por um misto de ingenuidade e a falsa ideia de que tudo está sob controle, o longa passa a questionar os limites da lealdade entre cada um deles e suas convicções. Até que ponto você iria para proteger sua família? O que fazer quando uma frágil estabilidade é marcada por um iminente perigo?

É engraçado como, após a entrada dos criminosos na trama, o cineasta também utiliza muito bem elementos de suspense e terror ao criar de forma inventiva a maneira como a máfia passa a ameaçar a família. Há uma cena em particular em que a invasão de domicílio não vem acompanhada de agressões propriamente ditas, mas se apega a várias suposições - e usa bem as imagens para isso com sombras e um trabalho sonoro apurado. Assim, cria-se uma tensão crível à gravidade dos acontecimentos. É nestes momentos em que Miles Teller é ofuscado por duas estrelas poderosas em cena: Scarlett Johansson e Adam Driver.

Depois de Histórias de um Casamento, Adam Driver e Scarlett Johansson brilham juntos novamente

Adam Driver é um dos grandes nomes de sua geração e isso, mais uma vez, fica impresso na telona. Em Tigre de Papel, o ator consegue cativar a audiência com um personagem múltiplo, que poderia facilmente cair em uma performance cheia de obviedades. Com uma facilidade impressionante de transformar a própria atuação ao longo do filme, o artista nos leva a duvidar, torcer, odiar e apreciar o personagem em diferentes momentos. Inclusive, a beleza de Tigre de Papel está justamente em brincar com qualquer ideia pré-concebida sobre essas pessoas - algo que não foge muito da vida real.

Do outro lado está a dona de casa Hester que, embora nos dê a difícil missão de ignorar a peruca dada a Scarlett Johansson, é provavelmente um dos grandes corações do filme. Em meio ao conflito que envolve a máfia russa e a família suburbana posta em perigo, o roteiro de James Gray oferece aqueles típicos "Oscar tapes" em cenas que demandam uma carga dramática maior. E ela entrega. Ainda que não tenha tantas oportunidades como em Histórias de um Casamento, coestrelado por ela e Driver, a eterna Viúva Negra consegue trazer toda a dor de uma mãe que teme pela vida de seus filhos e tenta ajudar o marido a resolver os problemas.

No terceiro ato do projeto, estes dois personagens são levados a certos lugares que nos colocam na ponta da poltrona ou nos afundam nela. Aqui, é uma pena que uma personagem tão interessante quanto Hester fique aquém das oportunidades dos demais - e isso justamente faz com que apreciemos mais os momentos com a atriz. Ao lado deles, um ótimo Miles Teller faz um trabalho sólido, mas não apenas ofuscado pelos seus colegas de elenco, mas provavelmente prejudicado pelo próprio roteiro que o coloca em outras dinâmicas dramáticas. Apesar disso, o seu lugar de protagonismo poderia ser mais bem aproveitado, embora ele não destoe dos demais.

Afinal, o que significa Tigre de Papel?

Enquanto vemos a máfia russa cercar estes dois irmãos e sua família, temos um reflexo tanto do momento socioeconômico estadunidense da época quanto na prospecção de qual será a realidade e o futuro da próxima geração. Gray usa uma dinâmica curiosa para falar destes dois pontos, já que apesar de desconstruir o sonho americano ao quebrar a ideia de meritocracia ou até mesmo honestidade, deposita uma esperança agridoce nos filhos de Irwin, que também compartilham de um elo semelhante ao do pai e do tio.

Para quem ficou na dúvida sobre o significado de Tigre de Papel, trata-se de uma expressão empregada àqueles que se consideram fortes e resistentes, mas não aguentam o tranco de uma onda de obstáculos. Esse aspecto talvez seja a triste realidade de alguns dos personagens do longa que entram em choque quando seus papéis diante de quem amam são confrontados. A força e a fraqueza das pessoas é, com certeza, aquilo que as leva adiante ou faz com que outros assumam a responsabilidade de algo que era seu.

James Gray nos lembra que os Estados Unidos sempre tiveram ideais falhos e promessas vazias de que na nação do Tio Sam tudo é possível se você se esforçar. Ao usar a família, nosso núcleo primordial, ele não só brinca com essa ideia como aproveita para mostrar que as nossos medos estão mais próximos do que imaginamos e nada é permanente.

Filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.