Críticas AdoroCinema
3,5
Bom
Primetime

Um ótimo Robert Pattinson topa tudo por audiência em filme quente na imagem, mas morno da história.

por Aline Pereira

2026 é o ano em que Robert Pattinson teve sua “pedro-pascalização” (lembra quando o víamos o tempo todo no cinema e na TV?) e nada menos menos do que quatro filmes com ele aparecem em um intervalo de apenas oito meses: O Drama, A Odisseia, Duna: Parte 3 (que vem só na reta do final) e Primetime – este último com especial destaque para o trabalho do ator, que estreou aplaudido no Festival de Veneza. Não à toa: este é um dos papéis que mais parece ter exigido versatilidade e deu certo: se alguém ainda não superou Crepúsculo (sério? até hoje?), está provado que Robert Pattinson é um ator talentoso.

Primetime se baseia na história real do programa “To Catch a Predator” ("pegar um predador", em tradução livre), show que se tornou um fenômeno na televisão norte-americana no início dos anos 2000 sob o comando do histriônico apresentador Chris Hansen (Robert Pattinson).

Com o objetivo de expor homens suspeitos de abusos sexuais contra crianças e adolescentes, o programa armava o flagrante: um membro da equipe entrava em bate-papos virtuais fingindo ser muito jovem e atraía esses homens para um encontro em uma casa que estava sendo filmada. Hansen, então, entrava em cena encurralando os predadores e, em boa parte das vezes, tinha a polícia esperando à porta para dar voz de prisão.

Topa tudo por audiência: Os bastidores da TV em Primetime

Não é exatamente o fato indiscutível de que abusadores devem pagar por seus crimes o que move Primetime eo filme nos leva muito mais para a trajetória feroz dos bastidores da televisão e da filosofia de que vale tudo por audiência. O filme se ambienta na primeira década dos anos 2000 pré-streaming quando horário nobre da televisão – o chamado “primetime” nos Estados Unidos – era disputadíssimo.

O canal NBC deu a Chris Hansen a missão difícil de derrotar a série Lost, exibida no mesmo horário por outra emissora e um fenômeno de audiência. O trecho do filme em que essa negociação ocorre, inclusive, é ótimo para quem se interessa pelos bastidores da indústria do entretenimento porque explica um pouco das estratégias para escolher onde alocar um programa e qual era o potencial para concorrer, por exemplo, com Friends. É uma pena que esse lado da trama passe tão rápido: é um assunto curioso, interessante e desconhecido por boa parte do público que consome a decisão final dos estúdios e produtoras.

Para superar Lost, Hansen e a produção do "To Catch a Predator" tornaram o ritmo e a intensidade dos programas ainda mais agressivos, mais humilhantes para seus alvos, com o apresentador cada vez mais teatral, e transformaram a tragédia do abuso de crianças e adolescentes em um espetáculo para o público. A justificativa, claro, é de que o programa estava fazendo um bem à sociedade ao denunciar criminosos. Disso, ninguém discorda, mas que os meios para chegar a esse “serviço” eram escusos, eram – e pouco tinham a ver com algum tipo de bondade genuína.

Todos os personagens centrais de Primetime fazem o que fazem em benefício próprio. Além de Robert Pattinson, o elenco conta com outras duas excelentes atuações: Merritt Weaver (vencedora do Emmy por Nurse Jackie) como a produtora do show, sempre a ponto de explodir com a pressão da organização e da audiência; e Skyler Gisondo (Santa Clarita Diet e Superman), um jovem em busca da carreira de ator que aceita um um teste para interpretar um pré-adoscente e descobre que seria para interpretar a isca do programa.

Filme até propõe discussão, mas não aprofunda e deixa para o público

Senti falta em Primetime de um pulso mais firme para explorar com mais emoção o aspecto central da espetacularização do sofrimento. É como se o longa caminhasse apenas narrando os fatos, nos mostrando como o programa funcionava na época, mas falta um conflito maior para abordar as nuances de uma questão tão relevante, séria e comum.

Não quero dizer que o filme “recuou” no tema, mas parece não ter dado tanta importância para este que seria um bom dilema, questionando não o ato em si, mas até onde um jornalista, profissão de Chris Hansen, deveria ir em situações como essa e quais são as questões envolvidas em programas de entretenimento que querem fazer justiça com as próprias mãos.

Embora o programa não fosse conhecido fora dos Estados Unidos (o que torna a dimensão do tamanho dele mais difícil para o público brasileiro), nós tivemos os nossos próprios shows lidando com problemas parecidos. Quem não se lembra de episódios em que os apresentadores chegaram a conversar com criminosos por telefone ou até interferir em uma negociação de sequestro? O show de Chris Hansen não conhecemos, mas fomos criados assistindo a muitos programas vespertinos.

Estética noventista e atuação de Robert Pattinson são os pontos altos

Além da superficialidade do tema central, os aspectos individuais dos personagens também não são detalhados em tela. Quero dizer, com a informação que o filme nos dá, fica fácil imaginar quais eram os grandes entraves e ambições de cada um, mas fica na imaginação mesmo. Fez diferença para mim justamente porque os personagens coadjuvantes pareciam interessantes e pareciam trazer boas histórias pessoais.

Nem mesmo o personagem de Robert Pattinson é assim tão elaborado. Junto ao desenvolvimento do programa, acompanhamos também um drama pessoal do protagonista que ameaça colocar a reputação dele em risco. E sendo extremamente autocentrado, fica nítida a enorme preocupação dele, mas, mais uma vez, isso fica mais por conta do trabalho de atuação do que do roteiro propriamente dito.

Aqui, é óbvio, vale destacar o bom trabalho de Pattinson no papel de um homem frenético, ambicioso, à beira de um ataque de nervos e pressionado pela fama. Ele entra e sai do personagem canastrão que o apresentador encarnava em frentes às câmera e de forma fluida e com bom timing vira o jornalista levemente desconectado da realidade e desesperado pelo sucesso.

Junto com Robert Pattinson, a estética do filme garantiu uma boa parte do entretenimento para mim. Em tempos de produções acinzentadas e escuras, foi uma satisfação para os olhos assistir a um filme visualmente vibrante, colorido, saturado. De quebra, para os noventistas saudosos como eu, há diversos momentos em que o diretor Lance Oppenheim nos coloca atrás das câmeras e monitores da época, como se estivéssemos assistindo ao material bruto do programa.

Por fim, talvez as expectativas grandes colocadas sobre o filme tenham jogado um pouco contra ele. Primetime é um filme simples, com atores carismáticos e que diverte facilmente durante suas quase duas horas, mas talvez você o esqueça assim que mudar de canal.