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    3%: Crítica da 4ª e última temporada na Netflix
    Por Barbara Demerov — 14 de ago. de 2020 às 18:13
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    "O passado é uma roupa que não nos serve mais."

    NOTA: 3,5 / 5,0

    Se existe uma palavra capaz de sintetizar o significado de 3%, série original Netflix, essa palavra é amadurecimento. Ao longo de quatro temporadas, o espectador não só passou a acompanhar a problemática triagem de uma minúscula parcela de pessoas rumo a um mundo "perfeito" como passou a observar traços de uma sociedade que não é tão distópica assim.

    Toda essa construção foi se desenrolando aos poucos, à medida que o protagonismo inicial de Michele (Bianca Comparato) passou a ser mais dividido, dando voz a mais personagens que tanto diferiam um dos outros. No início, tudo se baseava no Processo, no significado quase bíblico que ele possuía nas vidas dos residentes do Continente. Mas, diante do avanço nos ideais, planos conjuntos e na vivência da Causa em um lugar isolado e que respeitava os direitos iguais (a Concha), o foco dos personagens que cercavam Michele passou a ser de reflexão e questionamento.

    3%: Para Bianca Comparato, 4ª temporada traz um alerta contra a polarização política (Entrevista)

    Por que seguir as mesmas regras de décadas quando estas regras não representam mais os ideais do presente? A partir desta pergunta, 3% aproveitou a trama – que beirava a distopia com o visual e arcos narrativos da 1ª temporada – para trazê-la cada vez mais próxima de uma realidade que já conhece tantos problemas sociais e políticos: desigualdade, pobreza e o desinteresse de classes mais altas para com indivíduos que sequer recebem seus direitos básicos, para falar o mínimo.

    De uma espécie de Jogos Vorazes para uma narrativa que mescla conflitos pessoais com questões a serem resolvidas em sociedade, 3% avançou muitas casas até chegar no ótimo desfecho de seu 3º ano: a sensação de que só existe uma missão a seguir. De, fato na 4ª temporada é possível acompanhar um único grande embate, realmente "preto no branco". Entre o Maralto e a Causa, há um Continente que ainda não sabe para que lado correr – e os últimos episódios da série aproveitam o contraste entre ambos os locais para engrandecer a missão de Michele, Joana (Vaneza Oliveira), Rafael (Rodolfo Valentee cia. A dinâmica em grupo torna-se mais urgente agora, deixando de lado conflitos que poderiam tomar mais tempo nos episódios.

    TEMPORADA FINAL TRAZ FINAL SATISFATÓRIO E CONDIZENTE COM O OBJETIVO DO GRUPO PRINCIPAL

    Mas se 3% ainda possui imperfeições, elas recaem no mesmo lugar de antes: na condução das tramas paralelas à principal. Mesmo com um extenso elenco, a produção brasileira faz um bom trabalho no todo para apresentar as motivações de cada um (em especial Glória, Cynthia Senek, e Marco, Rafael Lozano), mas no caso da temporada final alguns personagens não ganharam desfechos condizentes com suas evoluções. Ora os diálogos se estendem por demais, ora soam apressados. Com isso, a impressão que fica é a de que falta algo no meio para sustentar as histórias individuais, que funcionam pela ideia que passam mas falham na execução.

    O mesmo acontece com a própria Michele. Se por um lado é ótimo ver que seu protagonismo na ficção inspira a todos a serem seus próprios líderes e seguirem sua voz, por outro é uma pena ver pouco de Comparato em cena – especialmente nos últimos episódios. De tão potente, a essência de Michele sempre fez com que sua presença fosse notada mesmo sem estar presente em todos os atos, mas na 4ª temporada sua falta se faz evidente. Apesar dela ter um papel relevante no plano da última temporada, a presença de seus companheiros é muito mais ativa. Isso não é necessariamente um defeito, pois o elenco principal mantém a estrutura firme – e, mesmo com menos destaque, Comparato e Bruno Fagundes (intérprete de seu irmão André) brilham com a emocionante troca em tela.

    3% supera seus problemas ao entregar um final coeso e alinhado com o discurso usado pela Causa. Caso o espectador tenha acompanhado a série desde o início, em 2016, é difícil não se ver satisfeito ao acompanhar uma conclusão que pode não ser completamente justa, mas é honesta e fiel aos princípios apresentados com tanta constância. A poderosa letra da música Velha Roupa Colorida condiz com o objetivo não só dos personagens, mas da produção como um todo ao trazer à tona tantas reflexões sobre viver em sociedade. Se o passado é uma roupa que não serve mais, que bom, pois o futuro de 3% dá espaço para trajes mais leves e à prevalência do equilíbrio.

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    Comentários
    • Ricardo F.
      Você assistiu a série inteira?
    • André Barbosa
      Graças a Deus acabou esse P@rc@ria...
    • Leandro Santos
      Gostei do final, foi OK. O que impressionou mesmo foi a evolução da série, plástica e tecnicamente.
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