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    Eu Terei Sumido na Escuridão: Crítica da minissérie documental da HBO
    Por Barbara Demerov — 3 de ago. de 2020 às 18:02
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    Luz versus sombra.

    NOTA: 4,5 / 5,0

    O episódio inicial de Eu Terei Sumido na Escuridão (I'll Be Gone in the Dark, no original) deu a entender que estávamos prestes a acompanhar mais uma série documental sobre true crime digna de nos dar pesadelos. Bem, isso pode ter acontecido com alguns espectadores, mas o fato é que este trabalho original HBO entrega muito mais que uma história sobre crimes brutais que assombraram centenas de pessoas. Sob a primeira camada da investigação da finada jornalista Michelle McNamara, autora do livro que dá título à produção, felizmente há muito mais para se discutir.

    O documentário dividido em seis capítulos toca em pontos emocionais de forma marcante, especialmente quando se trata do universo feminino e da violência contra tal. A obra choca ao mesmo tempo em que emociona. E este é um dos fatores que prova que Eu Terei Sumido na Escuridão é muito mais do que uma obra de true crime. Diante do poder do arco principal – abordando a impressionante jornada pessoal e profissional de McNamara –, os crimes do East Area Rapist tornam-se, aos poucos, coadjuvantes de uma evolução comovente referente às suas vítimas.

    PRODUÇÃO SOBRE SÉRIE DE CRIMES NA CALIFORNIA ABRE ESPAÇO PARA ABORDAR TRAUMAS E A FORÇA DO FEMININO

    O grande ponto da produção é que ela traz um contraste entre os três primeiros capítulos e os três finais. Se no início da jornada a impressão é a de que o documentário aborda essencialmente a história do assassino que aterrorizou a California entre os anos 70 e 80 – dos crimes à captura –, logo ela se dissipa e parte para outro olhar. Com entrevistas impactantes e repletas de detalhes, o protagonismo agora é garantido a partir do olhar de cada vítima que sobreviveu aos estupros e ataques de Joseph DeAngelo. As mulheres apresentadas (incluindo, também, um marido que vivenciou um dos atos) têm de lidar até hoje com um peso invisível.

    Michelle McNamara, autora do livro Eu Terei Sumido na Escuridão

    Portanto, Eu Terei Sumido na Escuridão não deve ser resumido ao gênero citado no início do texto, pois, ao dar voz e protagonismo às vítimas, a produção ganha um caráter coletivo muito bem-vindo nesta era Me Too. Aliado à riqueza de detalhes do trabalho que Michelle executou – essencial para a captura de DeAngelo, por mais que ela nunca tenha trabalhado como policial –, o documentário explora as complexas camadas dos traumas das vítimas apresentadas, o luto do marido e colegas de McNamara e, é claro, uma revisita moderna ao terror desencadeado há 40 anos.

    Ao se aproveitar de tantos elementos para contar uma única história de forma tão intensa, é de se admirar as nuances que a série documental entrega ao espectador. Do medo quase palpável ao ouvir a voz de DeAngelo à emoção em ver o trabalho de McNamara sendo finalizado sem que a mesma pudesse ver com seus próprios olhos, chega até a ser estranho definir Eu Terei Sumido na Escuridão como uma obra que possui tanto coração.

    Mas é através desta abordagem humana e sensível que a justiça é feita às vítimas, e é isso o que importa, afinal. Mais do que a prisão do assassino e estuprador, uma série documental para a TV não deveria se resumir apenas às feridas ou violência. Outra forma de se fazer justiça é entregar a história nas mãos do corajoso grupo de sobreviventes que, após décadas, enfim pode encontrar conforto graças àquela que dedicou a vida para solucionar um mistério que parecia intocável.

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