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    Boca a Boca: Crítica da 1ª temporada da série da Netflix
    Por Vitória Pratini — 21 de jul. de 2020 às 16:58
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    Série brasileira de suspense traz epidemia transmitida pelo beijo e aposta em desfazer amarras de pré-julgamentos.

    Nota: 4,0 / 5,0

    Em plena pandemia do coronavírus, estreia na Netflix a excelente série brasileira de suspense Boca a Boca. A trama acompanha adolescentes de uma escola agrícola que se veem no epicentro de uma epidemia transmitida pelo beijo. Enquanto as comparações com o que estamos vivendo no mundo real são inevitáveis, o enredo da série é muito mais do que a misteriosa doença — chegando a levantar questionamentos sobre os padrões de pré-julgamentos impostos pela sociedade que em vivemos.

    Isso porque a produção é ambientada em Progresso, uma cidade fictícia no interior do Brasil que não tem nada de progressista. Pais e professores conservadores temem que uma “seita” de uma aldeia próxima influencie negativamente os jovens do local, enquanto tentam bloquear os ímpetos aflorados de cada um deles.

    Boca a Boca é um prato cheio para o suspense
    Vanessa Bumbeers / Netflix

    À primeira vista, o que chama a atenção em Boca a Boca é a estética, a palheta de cores, as locações e a contagiante trilha sonora. Ao passo em que entrega uma produção muito brasileira — explorando cenários rurais de Goiás e de São Paulo e até mesmo trazendo uma versão remix de “Boi da Cara Preta” — a série consegue entregar um enredo universal, além de uma fotografia e direção de arte apreciadas mundo afora.

    Com teor adolescente, a produção criada por Esmir Filho (Os Famosos e os Duendes da Morte) mistura de estética neon de EuphoriaRiverdale com um quê de Sex Education e Stranger Things. Além, é claro, de apostar em cenas de suspense que aparentemente bebem de produções como Corrente do MalAs Boas Maneiras — filme dirigido por Juliana Rojas, que dividiu o comando e o roteiro de Boca a Boca com Esmir Filho. Certamente, a direção dos dois é um dos destaques positivos da série.

    O roteiro, por sua vez, é bastante original, direto e objetivo, não perdendo tempo em apresentar já na primeira cena da série uma pessoa infectada com a tal doença. Ainda assim, ao longo dos seis episódios da temporada, o enredo dá algumas derrapadas e chega a ser forçado, prejudicando algumas performances — talvez por um teor do fantástico praticamente inverossímil, talvez por querer parecer “descolado” até demais.

    Elenco da série da Netflix é excelente
    Vanessa Bumbeers / Netflix

    Se DarkStranger Things fizeram com que os espectadores desenvolvessem diversas teorias sobre a trama, Boca a Boca não é diferente, deixando um grande gancho para uma 2ª temporada. Todos os elementos fantasiosos e, ao mesmo tempo, disruptivos, são coroados por excelentes atuações.

    No elenco jovem, Michel Joelsas (Que Horas Ela Volta?) rouba a cena como o carismático Chico, e Caio Horowicz (Hebe) surpreende com uma entrega concisa como Alex. Já a novata Iza Moreira, que completa o trio principal como Fran, pena para chegar à qualidade de performance dos outros dois. Enquanto isso, os atores veteranos trazem uma bagagem necessária a mais para a produção: Denise Fraga brilha em cena como a autoritária e misteriosa diretora Guiomar; Grace Passô domina as sequências emotivas como a mãe de Fran; Bianca ByingtonBruno Garcia estão contidos mas excelentes nos papéis dos pais de Alex.

    Vanessa Bumbeers / Netflix
    Doença da série é metáfora para preconceito

    A série se propõe a levantar questionamentos, e isso não acontece sem o choque visual — o que pode incomodar os mais tradicionalistas. Mais do que uma infecção que transmite boca a boca, a doença retratada na série é o preconceito, mascarado na influência do controle que pais querem ter sobre seus filhos e nas amarras que cada um coloca sobre si mesmo, reprimindo vontades e desejos inerentes de experimentação. Trata-se de um retrato repleto de ironias e referências, intencionais ou não, da famigerada “família tradicional brasileira”, que até envolvimento em corrupção apresenta. Curiosamente, é justamente quem mais aceita seu jeito de ser, sem querer se adequar a um padrão e se permite sentir, são aqueles que dificilmente demonstrem os sintomas da infecção.

    Boca a Boca gera debate não só sobre o que se encaixa no padrão (e se este padrão deveria existir), com humor e clareza, mas também sobre sequências misteriosas que incitam teorias. Tal capacidade concede à série da Netflix o carimbo de “hit”. Resta saber se a próxima temporada conseguirá segurar o hype. Ou se simplesmente provará o hype não cabe em caixinhas, tal como alguns dos habitantes de Progresso não se adequam ao padrão.

    Boca a Boca está disponível na Netflix.

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    Comentários
    • Zé Luiz
      Ainda estou tentando digerir tudo que vi. A trilha sonora: arrebatadora e perfeitamente perfeita. Faltam-me adjetivos para elogiar a série. Sim, claro que teve deslizes, como toda e qualquer série. É só a primeira temporada. E teve muito mais acertos, que é pelo que a série marca, do que pequenos erros.
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