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    Crítica: Little Fires Everywhere, minissérie do Prime Video, é dominada por talento e presença do feminino
    Por Barbara Demerov — 1 de jun. de 2020 às 19:48
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    Reese Witherspoon e Kerry Washington conduzem arco principal de maneira primorosa, mas histórias paralelas não possuem tanta força.

    CRÍTICA: 3,5 / 5,0

    Para quem já assistiu a Big Little Lies, premiada série da HBO, em um primeiro momento Little Fires Everywhere talvez não pareça ser uma produção 100% original: a minissérie do Prime Video se ambienta no subúrbio de Ohio, onde vivem pessoas de classe alta; os problemas que os personagens têm de lidar são, em parte, ligados ao seu cotidiano privilegiado; e, para completar, tudo vira de cabeça para baixo quando uma misteriosa mulher e sua filha de classe mais baixa se mudam para o local. Coincidência?

    Pode até ser, mas é válido destacar que o romance homônimo no qual a produção foi inspirada chegou às livrarias em 2017, enquanto o de Big Little Lies foi lançado em 2014. No mais, também é mais do que justo começar este texto apontando que os assuntos pelos quais Little Fires Everywhere alterna ao longo de seus oito capítulos estão diretamente relacionados a questões sociais essenciais: em especial, o racismo e o modo como os brancos lidam com ele (mesmo quando afirmam não serem racistas) e o papel da mulher primordialmente enquanto mãe e dona de casa.

    A mãe artista, que é o caso de Mia (Kerry Washington), e a mãe dedicada com apenas um trabalho de meio período, Elena (Reese Witherspoon), formam o principal contraste que traz à tona estes dois pontos citados - e, ao longo da narrativa, muitos mais. A metáfora contida nos "pequenos incêndios por toda a parte" não cabe apenas ao incêndio de abertura da série, que consiste no uso do tradicional recurso "Whodunit" (ou Quem fez?) para criar uma ligação entre este e todos os eventos anteriores. A metáfora recai justamente no grande número de combustões que também podem acarretar o fogo, vide o amplo elenco e a atenção dada a cada um dos personagens.

    Ainda que psicológicos, tais incêndios são difíceis de serem controlados. À medida que o espectador descobre os segredos de Mia e sua filha Pearl, ele também se aproxima de algumas escolhas das protagonistas que podem não fazer muito sentido. Ao ajudar uma mãe, chinesa e imigrante ilegal, que deixou sua filha aos cuidados do Corpo de Bombeiros a tentar reaver a guarda, Mia pode parecer apenas uma personagem que busca se vingar de Elena de alguma forma indireta, mas o avanço da trama logo impede tal suspeita. Por meio de flashbacks focados inteiramente na dupla principal, descobrimos que, por trás de cada ato aparentemente impensado, há uma impressionante quantidade de segredos intocados por elas mesmas.

    Estes segredos ganham mais atenção com Mia, mas por outro lado é muito interessante ver o excelente trabalho que Reese Witherspoon faz com sua Elena. Como já citado, é impossível não notar as semelhanças de Little Fires com Big Little Lies, uma vez que Elena possui resquícios de Madeline (personagem também interpretada por Witherspoon). Felizmente, este padrão já bem demarcado pela atriz em seu próprio estilo de falar e se portar é posto de lado quando Elena passa a ganhar mais voz própria, indo além do clichê "mãe e esposa de uma família perfeita". Ao descobrirmos o quanto ela gostaria de construir uma carreira mais sólida como jornalista, por exemplo, é evidente que ela é mais frustrada que feliz.

    MINISSÉRIE TRAZ DIVERSAS FORMAS DE DISCUTIR O MESMO ASSUNTO

    O conjunto de reflexão e discussão contido no roteiro quando o assunto é racismo ganha uma mistura que peca pelo excesso na dramatização e na ausência de complexidade. Mas, ao seu modo, ele acaba funcionando muito por conta das camadas que as protagonistas vão apresentando. Há diálogos poderosos entre Elena e Mia que escancaram o racismo estrutural existente na comunidade. E, especialmente com base nos personagens mais jovens (os filhos de Elena e a filha de Mia), há conteúdos desta temática incorporados em situações claramente clichês, mas que auxiliam na construção dos conflitos de arcos secundários. O episódio "70 Centavos" é um bom exemplo.

    Little Fires Everywhere aparenta seguir diversos caminhos invididuais no início, mas todos acabam conversando entre si. Seja com relação à caçula Izzy e seu sentimento de não-pertencimento; com Mia e o dever que sente para trazer um pouco de justiça àquela mãe que teve de abrir mão da filha; ou com a própria Elena e sua visão de mundo que preza muito mais pelo controle do que a própria felicidade, todos os pontos se interligam.

    Por vezes esta conexão é muito clara e o enredo se alonga em questões que poderiam não tomar muito tempo para elas serem resolvidas - da mesma forma que, em outras, a sensação é de que não houve tempo suficiente para se fecharem propriamente. Com um desfecho digno, mas algumas pontas soltas e a impressão de que relações como a de Elena e Izzy poderiam ter sido mais detalhadas, Little Fires Everywhere é mais poderosa quando analisamos seus momentos-chave (como a emblemática cena final) do que o panorama completo.

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