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    Sex Education: Crítica da 2ª Temporada
    Por Fernanda Pineda — 31 de jan. de 2020 às 19:40
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    Segunda season vai além da sexualidade e mostra como laços familiares podem se tornar nós apertados na garganta.

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    Nota: 4,0 / 5,0

    Ao som de uma versão acapella do inspirado hit “I Touch Myself”, somos introduzidos aos minutos iniciais da segunda temporada de Sex Education. Depois de uma primeira leva de episódios em que, entre outros problemas, o protagonista sofria por não conseguir tocar o próprio corpo em plena flor da idade, o clipe inicial deixa claro que um belo dia as coisas mudaram. E não é sempre assim na adolescência?

    Mal sabia Otis Milburn (Asa Butterfield) que não conseguir se masturbar se tornaria o menor de seus problemas quando um elemento bem importante entrasse em cena: uma parceira. A falta de privacidade do personagem já havia sido tratada com a instalação de uma tranca na porta do quarto, mas a solução não resolve nem de leve os traumas que atrapalham o garoto. É espantoso, aliás, que com pai e mãe terapeutas ele ainda não tenha deitado num divã — mas deixamos aqui a sugestão para a próxima temporada.

    Se no primeiro ano a série criada por Laurie Nunn apresentou personagens apaixonantes, agora eles ganham motivações, razões e porquês que vão além do momento presente. A trama investiga as raízes familiares de cada um dos protagonistas e se aprofunda em contrapontos interessantes, como a relação problemática de Maeve Wiley (Emma Mackey) com sua mãe ausente versus o privilegiado Jackson Marchetti (Kedar Williams-Stirling) com suas duas mães. Num determinado momento, ele chega a chamar uma delas de heroína, frase que, definitivamente, jamais sairia da boca de Maeve.

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    Neste contexto, o perdão a quem te colocou no mundo surge como uma necessidade de sobrevivência. Enquanto Adam Groff (Connor Swindells) experimenta a opressão por ter certeza que é diferente do pai, Otis se fecha para o mundo pelo motivo contrário: ele tem medo justamente de repetir os passos do ausente Dr. Milburn. O contraponto surge com Ola (Patricia Allison), ninguém menos que a "filhinha do papaizão” Jakob (Mikael Persbrandt). Enquanto ele facilmente persiste como o personagem masculino mais maduro da série, sua filha adolescente se mostra capaz de encarar com saudável tensão e naturalidade as descobertas sexuais da idade. Num determinado momento, ela questiona o namorado Otis sobre a incapacidade de seguir em frente na pegação: “Não deveria ser tão difícil. Temos 16 anos”.

    Junto ao desejo desenfreado, a desinformação também perde a linha no Moordale High: a histeria coletiva a respeito de uma DST leva o colégio a tomar medidas e certas cenas acabam desfilando na corda bamba entre o entretenimento e mais uma aula chata de escola. Salva-se sempre, no entanto, o discurso seguro e descomplicado da Dra. Jean Milburn (Gillian Anderson). O que não se salva é a decisão dos roteiristas de colocar à cargo da personagem uma desatenção imperdoável que é necessária para o andamento da trama. Fica difícil imaginar que uma renomada terapeuta cometeria tal falha.

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    Quem também toma um chacoalhão da trama é justamente a queridinha Maeve. Enfrentando problemas que os colegas continuam sem conseguir compreender, a personagem acaba ficando mais “na sua” e vai firmando os pés para confiar nos valores em que acredita. Ao invés de mudar de visual por conta de uma decepção amorosa, a personagem foge do clichê e apaga os cabelos por motivos inesperados. A mudança parece combinar também com um novo comportamento de falar menos e ouvir mais. Sinal de amadurecimento, mas também uma escada para coadjuvantes ganharem força ao lado dela.

    O núcleo das garotas dá boas vindas a novas integrantes e está mais interessante do que nunca, seja por novas possibilidades de relacionamento, seja pela sororidade que se apresenta novamente como tema importante do seriado. A união é, de novo, a melhor estratégia para lidar com as dificuldades que compreendem existir como mulher na sociedade. É aí que nasce uma das cenas mais arrepiantes e emocionantes de toda a temporada.

    Quem corre por fora é o ótimo Eric Effiong (Ncuti Gatwa), que dá mais um passo em direção ao orgulho de ser quem é, tomando decisões sobre sua vida amorosa que refletem sua autoconfiança. No entanto, não é em nenhum par romântico que a série encontra seu melhor casal: a dupla mais poderosa em cena ainda é formada por Otis e Jean Milburn.

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    Os embates de mãe e filho são perfeitos com as atuações de Gillian Anderson e Asa Butterfield. Ele, com um trabalho ainda mais maduro (e que faz lembrar um jovem Ewan McGregor), e ela ainda mais impecável, como se fosse possível! Por trás da faceta de “terapeuta-maga-sexy”, a vulnerabilidade da doutora ganha destaque. Terapeutas também choram —  e também precisam de terapia.

    Levemente deslocada do ano de 2020, Sex Education ainda aposta em cores e figurinos vintage, além de manter seus personagens usando celulares com parcimônia. Acredite: eles são adolescentes e ainda usam os aparelhos para fazer ligações! Chocante! A vibe fica completa com ótimos momentos de direção e também de fotografia, fazendo um bom trabalho para unir os vários microcosmos do universo escolar. 

    Um quadro fechado numa mão esquerda com uma imponente aliança pode acrescentar uma centena de significados, assim como um plano enviesado na hora certa. Em momentos de surpresa, espanto ou até mesmo de ressaca dos personagens, a câmera entra na brincadeira no melhor estilo MTV dos anos 90 e a edição acelera, quase como se estivesse dando uma piscadinha para o espectador. Ou então chorando junto. Os temas importantes agradecem!

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