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    His Dark Materials: Crítica da 1ª temporada
    Por Laysa Zanetti — 28 de dez. de 2019 às 08:00
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    Uma menina entre dois mundos.

    Nota: 2,0 / 5,0

    Dois grandes desafios se impõem imediatamente para uma série ou um filme que se dispõe a adaptar uma obra literária com uma legião de fãs. Um destes desafios é estar pronto para lidar com as eventuais cobranças e exigências a respeito de fazer uma obra audiovisual que seja extremamente fiel ao material de origem. Apesar de isso não ser necessariamente uma regra, é importante de qualquer forma que a adaptação entenda os pontos mais importantes da narrativa para entregar um resultado que faça jus ao original, mesmo que decida mudar alguns acontecimentos ou conceitos — e, de novo, não há nada de errado com isso.

    O outro desafio é o de criar uma trama que seja ao mesmo tempo interessante para quem acompanha os livros além de uma mera ilustração, e que seja clara o suficiente para recepcionar novos públicos de forma igualitária. É uma dualidade interessante que faz com que quase sempre existam duas séries em paralelo, interpretadas de formas diferentes por estas duas parcelas do público. E, novamente, isso é um princípio que faz sentido. Tudo bem ser assim.

    O maior problema da primeira temporada de His Dark Materials, no entanto, é ser incapaz de entender (ou de admitir e, por consequência, transmitir) um dos elementos mais cruciais e marcantes da obra criada por Philip Pullman. Trata-se, para todos os efeitos, de uma adaptação bastante fiel do primeiro livro da trilogia, “A Bússola de Ouro”, guardadas as devidas e bem feitas modificações que introduzem mais cedo o conceito do multiverso e a história de Will Parry. Mas ser fiel em termos de condução da narrativa e reprodução dos acontecimentos também deixou às claras que o grande equívoco de His Dark Materials está ligado ao simples fato de ela se recusar a dedicar atenção à relação mais importante desta história, que torna todos os plot twists mais poderosos e impactantes: Lyra e Pan.

    A bem verdade, His Dark Materials peca por tratar os daemons como animais de estimação com os quais seus tutores têm uma ligação especial. Em vários momentos ao longo dos oito episódios da temporada, um ou outro personagem explica a alguma outra pessoa, só para o público não se esquecer, que os humanos têm um elo muito forte com seus daemons. Neste caso, a série burla a regra máxima de “não conte, mostre” e faz o oposto. Isso está longe de ser a melhor forma de fazer o espectador entender que os daemons são personificações da alma de seus humanos, e que os dois são parte de um único ser, e que separá-los é um ato de mutilação bárbaro.

    É na decorrência desta negligência que todo o restante da série tem um resultado morno, ainda que se atenha a um bom elenco — Ruth WilsonDafne Keen estão muitíssimo bem — que opera milagres com diálogos rasos e extremamente expositivos. Neste sentido, deixa a desejar sobretudo a adaptação feita por Jack Thorne, que se enxerga de forma tão fria e distante de Lyra Belacqua, Pantalaimon e Iorek Byrnison que não dá ao público outra opção senão se enxergar distante deste grupo também.

    Acima de qualquer outra coisa, His Dark Materials é uma história sobre a opressão e, sobretudo, a opressão através da religião e do catolicismo — tradicionalmente, as grandes questões de Pullman giram em torno deste tema. A pura e visível complexidade do universo criado pelo autor em “A Bússola de Ouro”, “A Faca Sutil” e “A Luneta Âmbar” torna fácil para qualquer um admitir que traduzir ideias tão filosóficas e manter uma audiência durante oito episódios sem uma percepção clara do que é o Pó não é tarefa fácil. Mas, seja por medo ou incompreensão, a série o tempo todo foge das oportunidades praticamente entregues de bandeja de comparar a mutilação das crianças feita a mando da Sra. Coulter com a mutilação genital feminina praticada em alguns países e religiões, para no final tentar solucionar o problema da natural incompreensão da busca eterna pelo (por enquanto) inexplicável Pó com mais uma cena expositiva, dessa vez com Lyra e Asriel (James McAvoy). É o caminho mais fácil, mais preguiçoso, e mais anticlimático. 

    No fim, His Dark Materials se destaca por boas atuações e pelos incontestáveis design de produção e efeitos visuais. Mas jamais assume a coragem de levar a história até onde ela deveria chegar, entregando um resultado semi-morto, inóspito. Há vida ali, sim, mas ela ainda não foi encontrada. 

     
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    • Sebastião S
      Esse ano a HBO mirou para um lado com GOT E HDM e acertou com Euphoria e Watchmen.
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