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    Watchmen 1x01: No começo, era assim
    Por Laysa Zanetti — 21/10/2019 às 11:27
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    Série de Damon Lindelof vai além da HQ de Alan Moore para contar uma história rica e pertinente.

    Atenção! Contém SPOILERS do episódio 1.01 de Watchmen, “It’s Summer and We’re Running out of Ice”

    O que LostThe Leftovers e o musical Oklahoma! têm em comum? A nova série de Damon Lindelof para a HBO.

    Watchmen, uma espécie de remix/continuação/spin-off da consagrada Graphic Novel de Alan MooreDave Gibbons ganha uma vida extremamente sua através do olhar cirúrgico de Lindelof. Em sua primeira hora, a série aparenta sair com êxtase de seu maior experimento, e consegue com facilidade ser duas coisas ao mesmo tempo: é extremamente referente à obra original, honrando a história clássica das HQs em breves acenos: a presença de Archie (a nave do segundo Coruja), cenas do Doutor Manhattan em Marte, as lulas caindo do céu. Nada, no entanto, que alguém que não esteja familiarizado com o material não consiga pelo menos ter uma ideia geral do que seja, ou entender todo o contexto sem a necessidade destes detalhes. Mas, de todos os lugares em que o episódio piloto de Watchmen poderia começar, o Massacre de Tulsa em 1921 talvez fosse o menos provável.

    Isso porque, apesar das muitas glórias, talvez o maior trunfo de Watchmen neste momento inicial seja a forma como a série rapidamente traça uma conexão simples e de analogias fáceis com um contexto político extremamente pesado e complexo. Quando a cena de abertura reproduz um evento real e trágico, em que brancos atacaram a comunidade negra da cidade de Oklahoma, deixando cerca de 300 mortos e mais de 10 mil desabrigados, está pedindo para que o espectador olhe para a história como ela realmente é — apenas para, breves minutos depois, observar como ela acaba sendo lembrada: na forma de um clássico e cultuado musical.

    Mas Watchmen não se passa em 1921, e se está ali, é para mostrar como um garotinho, fascinado por westerns e encantado com o cinema, precisou crescer cedo demais quando, apesar de toda a sua paixão pelos heróis em forma de xerifes da ficção, precisou ver sua comunidade ser destruída porque ninguém conseguiu conter o ódio racista dos brancos conservadores. Esse mesmo garotinho, que encerra o cold open com uma única lembrança dos pais (um bilhete, em que se lê “watch over this boy”) e uma neném no colo, é mais do que aparenta. Mas isso, pelo jeito, é história para o futuro.

    Ao invés de seguir o garotinho e sua suposta ‘história de origem’, Watchmen se mantém na estrada em que ele ficou solitário e dá um salto de 98 anos no tempo. Estamos em 2019. Nesta realidade, os policiais usam máscaras amarelas sobre seus rostos para que não sejam reconhecidos, e o uso de armas de fogo precisa ser autorizado e liberado pela central — uma prática que acaba custando a um policial a sua própria vida quando ele intercepta um motorista e descobre que ele tem uma máscara do Rorschach no porta-luvas.

    Existe uma clara distinção entre mascarados e heróis, uma que Watchmen não faz questão de explicar, mas deixa clara. Há uma espécie de “força especial” dentro da polícia, formada por três Vigilantes: Sister Night, ou Angela Abar (Regina King); Looking Glass (Tim Blake Nelson); e Red Scare (Andrew Howard). Eles não usam máscaras por serem poderosos ou terem força sobre-humana. Eles usam máscaras porque isso mantém suas identidades escondidas, mas também porque os redime de uma certa culpa. Quando estão encobertos, eles podem se sentir especialmente acima da lei e da ética, algo para o que o próprio comandante, Judd Crawford (Don Johnson) faz vista grossa.

    O curioso e talvez mais inesperado do episódio piloto de Watchmen é que, provavelmente, é mais importante conhecer Oklahoma!, o musical, do que a Graphic Novel de Moore e Gibbons para entendê-lo. A história que Lindelof está contando é essencialmente uma narrativa que se ampara em dois pilares: corrupção policial e racismo histórico. Para o primeiro, ele recorre a toda a complexidade do sistema e encara de frente as figuras, sobretudo, de Angela Abar e Looking Glass — ao mesmo tempo em que usam apetrechos tecnológicos para tentar descobrir a verdade de um suspeito e ela acaba arrancando a informação literalmente no soco. O que, no fim das contas, ninguém questiona.

    Para o segundo, olhamos para o que parece ser o maior inimigo e mal a ser combatido: a Sétima Kavalaria. Trata-se de um grupo de homens que usam máscaras semelhantes àquela usada por Rorschach e com um discurso de extrema-direita e supremacista branco — a substituição da letra C por um K, afinal de contas, não existe por acaso, e trata-se de uma referência direta ao Ku Klux Klan. Aparentemente, eles foram responsáveis por um ataque direcionado a policiais chamado The White Night, e foi depois disso que as máscaras amarelas foram estabelecidas.

    O que a Kavalaria quer agora especificamente ainda é um mistério, mas tem algo a ver com baterias e o que os policiais crêem ser a construção de uma bomba que causaria câncer. Isso, naturalmente, é uma crença que tem como base a ideia disseminada por Ozymandias, de que o Doutor Manhattan e as suas criações eram cancerígenas.

    Mas entre esses muitos elementos e simbolismos que Lindelof traz desde Lost e aprimorou com The Leftovers, Watchmen neste primeiro momento ganha força com um episódio piloto que mostra a que veio e tem uma linguagem extremamente clara e objetiva. Não se trata de uma narrativa lotada de símbolos, mas aqueles que existem estão ali com algo a contar, e deixam as pegadas para que o espectador as siga daqui em diante.

    Entre tudo isso, definitivamente o símbolo mais enigmático que existe é o excêntrico personagem de Jeremy Irons, que mora isolado em um castelo no campo, junto a seus dois empregados, Ms. Crookshanks (Christie Amery) e Mr. Phillips (Edward Crook). Oficialmente, ainda não sabemos quem é o personagem de Irons, mas todas as suspeitas recaem sobre ninguém menos que Ozymandias — e a capa do jornal em que se lê “Adrian Veidt oficialmente declarado morto” serve apenas como mais um indício.

    A apresentação do personagem de Irons e quase certamente Ozymandias é tão particularmente deliciosa quanto breve, mas espere por surpresas vindo por aí. Ele cita estar escrevendo uma peça em cinco atos, que seria protagonizada por seus dois empregados. O título, no entanto, é o que mais chama atenção: “The Watchmaker’s Son”, uma descrição que se encaixa perfeitamente com Jon Osterman, o homem que era o Doutor Manhattan antes de ele ser desintegrado e reintegrado novamente em uma câmara de testes.

    Estes símbolos e essas pegadas no caminho, no fim das contas, não são nem de longe os elementos mais importantes deste primeiro episódio de Watchmen. A nova série mostra a sagacidade de Damon Lindelof de atualizar uma história já pertinente, e exalta as vantagens de não se seguir uma adaptação fácil. A nova Watchmen parece ser um olhar sobre como o privilégio de cor e de classes domina a narrativa histórica, e por consequência cria um complexo sistema político que estimula o desinteresse. Isso tudo, pontuado com a trilha sonora de Atticus RossTrent Reznor e todas as possibilidades para as quais esta não-adaptação se abre — ainda mais depois de inesperadamente matar aquele que poderia ser um dos personagens principais e revelar que Louis Gossett Jr. é aquele garotinho que 1921 —, e estamos facilmente diante de uma grande promessa para este fim de 2019. 

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    Comentários
    • Paulo Becker
      A verdade que os anti-heróis são os sucessos nessa era; The Boys é um grande exemplo disso.
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