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    Fosse/Verdon: Crítica da minissérie
    Por Katiúscia Vianna — 19 de out. de 2019 às 08:00
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    Michelle Williams brilha numa série que dá alguns passos errados para compor um espetáculo.

    Nota: 3,5/5,0

    Os nomes de Gwen VerdonBob Fosse não são tão reconhecidos internacionalmente, como Beyoncé ou Steven Spielberg, por exemplo, mas também deveriam. Ela foi descrita como a melhor dançarina da Broadway de todos os tempos. Ele é recordista de vitórias no Tony Awards e se tornou um visionário coreógrafo e diretor. Juntos, mudaram a história do entretenimento, mesmo com um casamento fracassado. Tal história é contada em Fosse/Verdon, que deseja apresentá-la para o público fora do circuito dos musicais.

    Tal proposta surge num momento oportuno. Produções como American Crime StoryFeud abrem espaço para cada vez mais séries sobre histórias perdidas de Hollywood, ao mesmo tempo que a era #MeToo se torna ideal para contar a história de uma mulher que foi ofuscada, injustamente, por um homem. Afinal, o nome de Bob Fosse se tornou maior que o de Gwen — que era mais famosa que o marido, originalmente, e o ajudou (sem ganhar créditos) em seus grandes projetos, como o icônico Cabaret. E, nesse sentido, a trama cumpre seu papel, sendo responsável por apresentar Verdon para uma nova geração. Mas, em termos gerais, a série não foge de seu público específico.

    Afinal, é preciso entender que Fosse/Verdon foi desenvolvida pela turma dos musicais. O roteirista é Steven Levenson, vencedor do Tony Awards por Dear Evan Hansen. A produção é de Lin-Manuel Miranda e Thomas Kail, parceria responsável por Hamilton, maior fenômeno da Broadway dos últimos anos. São pessoas que conhecem o gênero, sabem produzi-lo e entendem como agradar seu público. O entrosamento da equipe de produtores é claro na tela, criando algo envolvente. As referências culturais são presentes para fãs, que se jogam numa caçada semanal por easter-eggs, seja no lado estético e até no elenco, diga-se de passagem. A equipe se dedicou em recriar tal época, separando tempo e espaço para fazer jus até em aparições breves de figuras importantes, vide os belos trabalhos de Kelli BarrettBianca Marroquin como Liza Minnelli e Chita Rivera, respectivamente. Ao mesmo tempo, tamanho foco também é capaz de afastar um espectador que não conhece tanto sobre o assunto.

    Curiosamente, é possível perceber a preocupação em atrair diferentes tipos de espectadores. Não é a toa que o primeiro episódio se passa nas filmagens de Cabaret, o maior sucesso de Fosse e clássico do cinema. As pessoas sabem quem é Liza Minnelli. Mas tal escolha começa a narrativa no meio da história do casal Fosse/Verdon, iniciando uma série de saltos temporais que bagunçam demais a trama, confundindo aquele que assiste. Ou pior, não promove uma conexão com o pessoal do outro lado, já que é difícil acompanhar a evolução (ou não) emocional de cada personagem ou manter atenção dentre tantas transições em distantes épocas. Se não fosse por atuações magníficas, as personalidades dos protagonistas surgem fragmentadas ao tentar transmitir as dimensões pessoais de tais figuras históricas.

    Não entenda errado, a série transmite bem o caráter tóxico do relacionamento entre Gwen e Bob — antes, durante e depois de seu casamento. Ao mesmo tempo que dá o crédito necessário para a atriz, também mostra como algumas de suas próprias atitudes eram destrutivas, sofrendo duplamente numa sociedade que passava a valorizar o olhar brilhante do amado, mas a desvalorizava por conta da idade. E se Verdon ganha o espaço que merece, é a jornada de Fosse que não ganha a mesma profundidade, nunca dando justifica para seus atos errados, além de breves flashbacks. E olha que a produção tem sua própria versão de O Show Deve Continuar, tentando recriar o que o diretor fez e contar sua versão da história. Porém, por mais que Rockwell entregue uma performance sólida, ele nunca se torna tão interessante quanto sua respectiva.

    É aqui que paramos para celebrar o trabalho de Michelle Williams. De modo coletivo, todo o elenco trabalha de forma coesa. Além dos dois protagonistas. Norbert Leo Butz tem seus momentos como o melhor amigo de Bob, Paddy, e Margaret Qualley certamente é uma revelação ao interpretar o segundo real amor do coreógrafo, Ann Reinking. Mas todas essas performances são ofuscadas por uma entrega magistral da intérprete de Gwen Verdon. Williams já foi indicada quatro vezes ao Oscar, logo todo mundo sabia que ela sabe atuar e ia mandar bem no trabalho. Mas sua composição gestual, a transformação em seu tom e cadência vocal... São esses detalhes que fazem sua interpretação ser ainda mais impecável. O Emmy é merecido, desculpa Amy Adams.

    Dentre confusões de roteiro, são as performances de seu elenco e a composição impecável de uma época quase mágica que seguram Fosse/Verdon. A trama rende grandes momentos dramáticos e alguns episódios bem construídos — com destaques para "Me and My Baby" e "Where Am I Going?". Bem intencionado, o projeto até se perde algumas vezes, mas ainda consegue entregar a mensagem que deseja, encontrando seus ápices ao desmistificar as figuras de Gwen e Bob. É irônico que uma série sobre musicais tenha, justamente, problemas de ritmo. Mas até os artistas mais talentosos têm problemas, as vezes.

    Fosse/Verdon é exibida no Brasil pelo canal Fox Premium.

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    Comentários
    • Alan Ramos Fernandes
      Achei a serie bem interessante , pra quem gosta dos filmes do Fosse e tem curiosidade de saber como surgiu alguns trabalhos memoráveis do artista e indispensável .
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