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    Emmy 2019 se destaca apostando no novo sem tirar o pé do chão (Análise)
    Por Laysa Zanetti — 24/09/2019 às 13:13
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    Os erros e os acertos da cerimônia que registrou recorde de baixa audiência.

    Steve Granitz/Getty Images

    Por mais previsíveis que sejam as premiações do Emmy Awards, ano após ano a Academia de Artes de Ciências Televisivas (ATAS) encontra novas formas de surpreender o público com a seleção dos premiados. É claro, uma lista de esnobados e vitórias consideradas injustas fazem parte de qualquer prêmio, de qualquer seleção. Mas em uma noite fadada a poucas surpresas, a 71ª Edição do “Oscar da TV” foi na contramão do que muitos especialistas previam e escolheu Phoebe Waller-Bridge como a grande representante do que significou a noite do domingo (22) para as telinhas.

    Isso porque, à sombra de finais de séries marcantes para o Emmy (leia-se: Veep e Game of Thrones, dois furacões da HBO que se consagraram como históricas vencedoras), era de se esperar que nada mais se destacasse além dos carros-chefe da emissora líder de indicações. Não que isso fosse benéfico para a cerimônia em si, que foi perdendo relevância junto ao público ano após ano justamente pela repetitividade e pela previsibilidade dos vencedores. A cadeira cativa de Julia Louis-Dreyfus como vencedora do prêmio de melhor atriz em série de comédia fez com que (quase) ninguém esperasse outro nome anunciado quando Phoebe Waller-Bridge subiu ao palco pela segunda vez (mas não pela última) para receber o seu prêmio.

    O fenômeno Fleabag, que varreu a dominação de Veep para debaixo do tapete, aliás, não vem em má hora. Como já havíamos comentado aqui, Phoebe Waller-Bridge tornou-se um dos nomes mais cobiçados da televisão neste último ano, algo impulsionado pela boa recepção da primeira temporada de Killing Eve (produzida e escrita por ela) que, consequentemente, levou um público maior a conhecer a comédia autoral produzida pela BBC em parceria com a Amazon Studios.

    A impecável segunda temporada da série ganhou momentum em um boca-a-boca aliado à ótima recepção da crítica, e isso fez com que a perspectiva de ela ser ignorada fosse ainda mais surreal. O mérito, é claro, é todo da própria produção. Fleabag é uma das comédias mais honestas que a televisão já viu recentemente, uma história complexa que, ao mesmo tempo em que cada cena e cada diálogo esconde dezenas de significados, nada disso torna dela menos acessível ou mais “difícil” de se digerir. Waller-Bridge utiliza todos os elementos da cena e todos os aspectos da cinematografia para compor a identidade de sua obra, e faz isso como ninguém.

    Emmy 2019: Confira todos os vencedores

    Dan MacMedan/Getty Images

    É por isso que seu reconhecimento junto à premiação mais tradicional e renomada das telinhas é significativo. É um ato que declara com todas as palavras que há um esforço da Academia de se aproximar daquilo que é exaltado pela crítica, este um ponto historicamente sensível — sobretudo quando levamos em consideração as recentes esnobadas de favoritas da imprensa, como The Americans e The Leftovers.

    A coerência, aliás, não fica restrita a Fleabag, mas a mera indicação de Schitt’s Creek (uma comédia canadense que infelizmente segue inédita no Brasil) é um outro retrato da busca da Academia pela aproximação de um gosto mais acessível e unânime. Talvez isso seja apenas uma tentativa de resgatar a audiência da cerimônia (que segue em queda ano após ano e bateu mais um recorde negativo em 2019), mas é uma tentativa da qual a própria qualidade da premiação se beneficia.

    Mas ainda que tenha rendido boas surpresas, seja com Fleabag ou com as vitórias históricas de Jharrel Jerome (melhor ator em série limitada, por Olhos que Condenam) e Billy Porter (melhor ator em série dramática, por Pose), o Emmy 2019, enquanto uma cerimônia televisionada, foi um evento mal organizado e pouco atrativo. Enquanto a falta de um apresentador foi benéfica ao Oscar deste ano, concedendo àquela cerimônia uma necessária agilidade, o mesmo não pode ser dito aqui. A Fox, que organizou e transmitiu o evento neste ano, optou por uma cerimônia recheada de gags pouco acessíveis e que dificilmente atingiram o público.

    A apresentação de Maya RudolphIke Barinholtz do prêmio de melhor ator em série de comédia, por exemplo, foi legal até a página dois, quando ficou impossível entender sequer em qual segmento da cerimônia estávamos. Por que exatamente uma apresentação de Adam DeVine dos segmentos de programa de variedades? Aí está, inclusive, uma seção que poderia facilmente ser transferida para o Creative Arts Emmys, que ninguém sentiria falta. O estranho “In Memoriam” das séries que chegaram ao fim na última temporada ignorou Crazy Ex-GirlfriendYou’re the Worst e a própria Fleabag, que foi uma das maiores vencedoras da noite. E não vamos nem falar da esquisita apresentação decorada do elenco de Game of Thrones, em uma homenagem constrangedora ao ultra-criticado fim da série.

    Mas para uma cerimônia pouco atraente e organizada para fazer o público dormir, a salvação ficou a cargo dos próprios vencedores. Os destaques vão para os discursos de Patricia Arquette (melhor atriz coadjuvante em série limitada, por The Act), que lembrou a irmã transsexual e pediu mais apoio aos artistas LGBT; Michelle Williams (melhor atriz em série limitada por Fosse/Verdon), que pediu igualdade salarial para as mulheres, a sempre transgressora Alex Borstein (melhor atriz coadjuvante em série de comédia, por The Marvelous Mrs. Maisel) e a fala histórica de Billy Porter, o primeiro homem negro abertamente gay a receber o prêmio máximo de atuação dramática.

    “Eu vejo isso como um reconhecimento do que é possível quando uma mulher recebe a confiança de entender suas próprias necessidades, e sente segurança o suficiente para vociferá-las, e é respeitada o suficiente para que a ouçam”, afirmou Williams. “Quando pedi por mais aulas de dança, ouvi um ‘sim’. Mais aulas de canto, sim. Uma peruca diferente, um par de dentes falsos que não fosse feito de borracha, sim. E todas essas coisas demandavam esforço e custavam dinheiro, mas meus chefes nunca presumiram que soubessem mais do que eu sobre o que eu precisava para fazer meu trabalho e honrar Gwen Verdon [...] 

    Então, da próxima vez que uma mulher — especialmente uma mulher de cor, porque ela ganha 52 centavos de dólar para para dólar que um homem branco ganha — te disser o que ela precisa para fazer o seu trabalho, ouça. Acredite nela. Porque um dia ela pode parar na sua frente e dizer um ‘muito obrigada por me permitir ter sucesso’, por causa do local de trabalho, e não apesar dele.”

    É claro que, em meio a tais momentos que romperam com a regra previsível do Emmy, a premiação jamais deixou de jogar no campo da própria segurança. Somando os prêmios das categorias técnicas, Game of Thrones segurou o posto de maior vencedora do 71º Emmy Awards, assegurando, nas categorias principais, melhor ator coadjuvante e melhor série em drama. Mas enquanto temia-se uma predominância geral da meteórica produção de fantasia da HBO, é um bom recado ver a excelente Succession premiada em roteiro, ainda que a paixão da ATAS por Ozark continue sendo um mistério.

    Mas passada a cerimônia, é hora de olhar para um futuro sem Game of Thrones para as premiações, um futuro potencialmente brilhante para séries que sempre ficaram às sombras de Drogon, Rhaegal e Viserion e agora vêem um caminho livre — caminho este que será aproveitado pela Netflix com Ryan MurphyShonda Rhimes e companhia; e pela própria HBO, com seu gigantesco quadro de novas séries para 2020. 

    Mas se alguém perguntar o que queremos para este futuro, a resposta é bem simples: que Phoebe Waller-Bridge continue trabalhando.

     
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