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    Sintonia: Crítica da 1ª temporada
    Por Ygor Palopoli — 09/08/2019 às 19:00
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    Vencer é subjetivo.

    NOTA: 3,0/5,0

    A arte como ferramenta transformadora, a religião como princípio de restauração, e o crime como saída fácil para os problemas. À primeira vista, é comum que haja um certo tipo de reducionismo ao pensar nos principais arquétipos de mudanças presentes dentro das retratações mais comuns da favela dentro das obras do entretenimento, no geral. No entanto, se Sintonia busca passar uma impressão específica, é a de que não existe objetividade no conceito de "vencer na vida".

    Em, praticamente, todas as narrativas ambientadas dentro de uma periferia, você irá encontrar algum personagem assim: destemido e inteligente, direcionando toda a sua trajetória para o ponto em que finalmente conseguirá sair daquele local hostil para dar uma vida melhor a sua família. Aqui, porém, exploram-se as alternativas de ascensão dentro das próprias raízes. E é por elas que nós vamos começar.

    Idealizada por Kondzilla — um dos produtores musicais mais importantes do funk nos últimos anos — em parceria com a LosBragas, Sintonia é conduzida através da perspectiva de três amigos de longa data: Nando (Christian Malheiros), Doni (MC Jottapê) e Rita (Bruna Mascarenhas). Vivendo juntos na periferia paulista desde a infância, cada um deles possui suas próprias aspirações e desejos: desde um futuro na carreira musical até a perigosa escalada no mundo do crime. 

    Assim como deixa implícita a existência de um grande potencial não aproveitado no desenvolvimento de seus protagonistas, a série parece, inicialmente, cair neste mesmo erro em prol de uma condução exageradamente apressada dos acontecimentos. Nos primeiros episódios, há uma tentativa muito clara de transformar o estilismo presente nos clipes de funk em uma linguagem própria — o que seria completamente bem-vindo caso a dinâmica não fosse confundida com a pressa.

    Os incômodos iniciais tendem a melhorar com o tempo, e isto é uma afirmação que pode ser aplicada a praticamente todos os levantamentos negativos sobre a série. Bruna, Jottapê e Christian parecem precisar, ainda, de algum tempo de tela para finalmente "pegarem no tranco" em suas representações, cabendo a este último — que já mostrou sua capacidade para papéis densos e contidos no excelente Sócrates (2018) — a maior carga dramática, por estar na pele de uma pessoa repleta de dualidades e internalizações. 

    Netflix

    Conforme a história avança, os problemas de representação e verossimilhança vão ficando para trás e sentimos os conflitos engrenarem cada vez mais. Antes de passarmos para os acertos da série, um último ponto negativo importante precisa ser considerado: os diálogos expositivos. Raramente apresentando-se para causar uma sensação sólida e palpável de desenvolvimento, as conversas parecem ter como único propósito de existência esclarecer o óbvio. Apesar da exímia preocupação em construir um dialeto mais parecido possível com o da "quebrada", falta esmero em talhar mais humanidade nos encontros e desencontros. É difícil, por exemplo, encontrar um diálogo que não seja interrompido pela montagem frenética ou por algum acontecimento importante. Caso houvesse mais espaço para florear o íntimo de cada personagem, algumas relações poderiam ser melhor compreendidas, como a de Doni com o seu pai. 

    Os principais acertos de Sintonia ocorrem justamente quando não há receio de mostrar o que o sol não toca. Para os residentes de uma periferia, as arestas de possibilidade tornam-se limitadas, porém, todas são quase igualmente exploradas dentro de seus respectivos contextos sociais. Surgindo como uma figura até um tanto inesperada dentro da trama, a Igreja é representada da maneira mais crua possível: uma máquina de dinheiro ou um refúgio para os aflitos. Cabe ao espectador tirar a sua própria conclusão. A escalada de status e poder na "família" do crime organizado também não comete o pecado comum do já supracitado reducionismo, e mostra que é, sim, possível existir espaço para a convivência entre o respeito e a perdição.

    Mas é no arco narrativo de Doni que entendemos o quanto a importância de Konrad Dantas (o Kondzilla) dentro da concepção geral possui uma personalidade própria. Sabendo muito bem que não existe espaço para sentimentalismo os que sonham com o sucesso, Dantas procurou deixar praticamente todas as figuras por trás dos bastidores de grandes artistas do funk sem forma homogênea. O empresário malvado rapidamente se converte em figura conselheira, a MC mais cotada do momento nunca parece revelar suas verdadeiras intenções, e todo o plano de fundo do cenário empresarial que banca a existência do funk ostentação apresenta-se de maneira sutil. Em resumo, fica a sensação de que todos são apenas peças dentro de um sistema muito mais complexo e sintomático. 

    Perto dos episódios finais, os arcos de cada personagem já parecem caminhar com as próprias pernas, sem a necessidade da existência de passagens expositivas, cortes rápidos e frases de efeito. A única questão que não agrada tanto, já nos últimos momentos, é o quanto a história se segura apenas para tentar garantir uma segunda temporada. É totalmente comum que a estratégia de aplicação de deixar o espectador querendo mais seja a principal força motora para causar um ímpeto de aclamação a um segundo arco, mas com as devidas proporções.

    Netflix

    Conforme dito no primeiro parágrafo, não existe acerto maior que a própria sutileza em saber do que está se falando. O que mais cativa em Sintonia é a falta de necessidade de recorrer aos subterfúgios comuns das representações batidas da favela. Aqui, toda a ambientação soa tão congruente com os acontecimentos da trama (um merecidíssimo ponto positivo também à direção de arte e cenografia) que fica fácil sentir-se conduzido. Quem também possui um mérito especial para que isso seja estabelecido é o time de coadjuvantes que, muitas vezes, rouba a cena dos próprios protagonistas, nos levando ao desejo inconsciente de querer conferir como suas próprias trajetórias vão se desenrolar. Até mesmo os personagens que mais servem como alívio cômico são excelentes, como os barbeiros do bairro, por exemplo. Curiosamente, é justamente com todos estes elementos secundários que o roteiro mais funciona, mostrando que a despretensão é a grande chave para replicar um cenário realista.

    No final das contas, Sintonia é uma série sobre a vida daqueles que buscam, dentro de suas próprias concepções, a sensação de vencer em um ambiente programado para a derrota. Indo na contramão de tantos outros produtos que nos vendem a ideia de que o progresso está em ganhar o mundo, a Netflix acerta (com ressalvas) ao entregar uma narrativa subjetivamente brasileira, com suas próprias raízes pessoais.

    A arte transforma, a religião restaura, e o crime não compensa: ou ao menos assim deveria ser.

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